sexta-feira, 11 de agosto de 2017

QUEM ESTÁ INCLUÍDO LEVANTA A MÃO!

O Brasil, como a maioria dos países da América Latina, vem desde o século XX, sofrendo mudanças caracterizadas pelas grandes transformações tecnológicas concomitantes a crises econômicas, políticas e conflitos sociais; acentuando um modelo de cultura global esquizofrênica em que produz conhecimento e tecnologias cada vez mais sofisticadas enquanto acentua o abismo de desigualdades, segmentando grupos que possuem acesso a bens de consumo decorrentes da modernização em detrimento de outros grupos incapazes de participar dessa gama de mudanças e benefícios tecnológicos.   




A exclusão social passou a ser discutida e agenciada pelo estado, como um marcador para classificar os pobres que necessitavam do amparo de ações e programas governamentais.

A origem do termo é atribuída  a René Lenoir, por seu livro Les exclus: um français sur dix  (Os excluídos: um em cada dez franceses), quando discutiu a crescente desigualdade social afetada na crise de 1970 na França, com a onda crescente de desemprego, envelhecimento da população e “invasão” de  imigrantes. Cabe enfatizar que o termo excluído traz em si a premissa do binômio exclusão-inclusão, residindo aí, um marcador que acentua as discriminações, ao nomear determinados grupos como incapazes sociais (ZIONI, 2006).

Carregada de tensões por trazer consigo esse binômio como delimitante de classes sociais a partir de um olhar hegemônico sobre o outro, possui em sua configuração a marca do capitalismo contemporâneo, visto que limita os grupos sociais a estar dentro ou fora da sociedade de consumo. 

Nessa dimensão podemos perceber como a questão da inclusão e exclusão dimensiona o mundo do trabalho, da cultura, da sociedade como um todo e, como consequência, da educação também, uma vez que   o desenvolvimento de uma sociedade está intrinsecamente  ligada à educação.

 Segundo Severino (2000), “a educação é entendida como mediação básica na vida social de todas as comunidades humanas” e esta se encontra diretamente ligada às condições econômicas e socioculturais.

Cabe ressaltar que na marquise do binômio exclusão-inclusão, outros tantos marcadores de desigualdade foram abrigados sob a ótica do estado, a exemplo das pessoas com deficiências, idosos, sem tetos, negros, gênero e por aí vai. 



A inclusão digital,  passou a ser pauta de discussão pelo governo brasileiro a partir do Livro Verde da Sociedade da Informação no Brasil (BRASIL, 2000), com o intuito de “alavancar o desenvolvimento da Nova Economia em nosso País em que seria preciso acelerar a introdução dessas tecnologias no ambiente empresarial brasileiro”

A “alfabetização digital” passou a ser elaborada como elemento-chave estratégico em que cabia ao “sistema político promover políticas de inclusão social, para que o salto tecnológico tenha paralelo quantitativo e qualitativo nas dimensões humana, ética e econômica.” (BRASIL. 2000, p. 5). Sob a dimensão de uma política de governo, essa democratização de acesso às novas tecnologias deveria se dar por meio da “iniciação da população no uso das TIC”.




Portanto, apesar do termo “inclusão digital” possuir um amplo poder de comunicação, é insuficiente para explicitar as potencialidades das TIC para a organização dos sujeitos em torno de seus objetivos e para a transformação social. No entanto, na falta de um termo que melhor expresse as potencialidades das TIC e que tenha força comunicacional, continuamos utilizando o popularizado “inclusão digital”, sem deixar de explicitar suas ambiguidades, contradições e implicações.(BONILLA; OLIVEIRA, 2011, p. 46)

Sob essa perspectiva, o conceito de inclusão digital passou a ser ampliado e discutido no que diz respeito a não somente a inclusão de grupos sociais ao mundo das novas tecnologias, mas também para problematizar  a qualidade do acesso e sobre quem detém o “domínio” de uso das TIC, visto que,  

[...] a inclusão digital não está ou estará só na competência desses grupos para estabelecer e manter uma rede de conexões com a nova ordem capitalista, mas na sua performance por meio delas, nas maneiras como as enunciam e nas contradições envolvidas nessa enunciação. A ID, portanto, não será só a adaptação à linguagem dos novos meios como imperativo abstrato, mas seu uso tático, criativo, transformador. (BUZZATO. 2007, p. 74)

Diante de tema tão complexo surge a questão: Como a educação vem lidando com a inclusão digital nas escolas públicas, na perspectiva da apropriação (letramento) das TIC para a emancipação de seus alunos? 

Já que para o filósofo Pierre Lévy, 

[...] não basta estar na frente de uma tela, munido de todas as interfaces amigáveis que se possa pensar, para superar uma situação de inferioridade. É preciso antes de mais nada estar em condições de participar ativamente dos processos de inteligência coletiva que representam o principal interesse do ciberespaço (LEVY,1999, p. 238).


Isso significa dizer que  não basta tão somente  promover a alfabetização tecnológica e promover o  acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação para alunos e comunidade; torna-se necessário pensar a qualidade da educação em suas dimensões estruturais e funcionais, desde a aquisição e manutenção de equipamentos a qualificação de professores.

Nesse contexto, os processos de ensino aprendizagem das TIC, envolvem questões políticas que reverberam nos espaços sociais de aprendizagem que trazem a tona discussões acerca do papel da educação para formação dos sujeitos, levando em conta as necessidades e anseios da sociedade.




O desafio posto para a educação e para a sociedade contemporânea reside em encontrar meios de viabilizar a democratização efetiva do conhecimento e apropriação das  TIC de modo que todos possam ser agentes transformadores de realidades. 

A escola, passa a ser um dos  espaços imprescindíveis para a interlocução e para a criatividade, reafirmando a sua função de preparar o estudante para o mundo, estimulando  novas  buscas na geração de caminhos que possam  conduzir  educandos e educadores  a   construir  formas outras de aproximações e apropriações às novas demandas educativas que a sociedade do saber e da informação oferecem.  



Referências:
BRASIL. Sociedade da informação no Brasil : livro verde . Organizado por TAKAHASHI, Tadao. – Brasília : Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000. Disponível em: http://livros01.livrosgratis.com.br/ci000005.pdf Acessado em 10 de Ago. 2017.

BONILLA, Maria Helena; OLIVEIRA, Paulo Cezar Souza de. Inclusão Digital: Ambiguidades em Curso. p. 25-50 In: Inclusão Digital: polêmicas contemporâneas. BONILLA, Maria Helena; PRETTO, Nelson (org.)Salvador: Edufba, 2011.
_______. Políticas públicas para inclusão digital nas escolas. Revista Motrivivência. Ano XXII, No 34, P. 40-60 Jun./2010.

BUZATO, Marcelo. Entre a Fronteira e a Periferia: linguagem e letramento na inclusão digital. Tese (Doutorado em Lingüística Aplicada) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007. (Capítulo 2)

LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

SEVERINO, Antônio. Educação, trabalho e cidadania: a educação brasileira e o desafio da formação humana no atual cenário histórico. In: São Paulo em Perspectiva. Vol.14, nº2.  São Paulo: Apr./June 2000. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392000000200010>.

ZIONI, F. Exclusão social: noção ou conceito? In: Saúde e Sociedade, v.15, n.3, p.15-29, set-dez, 2006.

3 comentários:

  1. Oi Regina! gostei da forma como você articulou a inclusão digital com os desafios da escola. Os professores temos muita responsabilidade no tópico, porque temos que contribuir para que as pessoas generen as transformações necessárias as suas demandas sociais, econômicas, culturais e políticas.

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  2. infelizmente a escola ainda está muito centrada no chamado uso pedagógico das TIC, tomando os usos sociais como não direcionados à escola, ou que a escola não deve fazer uso deles, daí os bloqueios das redes sociais, as proibições de celulares, etc, etc...

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    1. E isso contribui para que estudantes fiquem limitados por esse uso pedagógico das TIC no ambiente escolar. As redes sociais tornam-se espaços dinâmicos de outras tantas aprendizagens e a escola (salvo algumas excessões) se transforma para esses estudantes, um lugar enfadonho de aprendizagem diante do mundo de possibilidades que o digital oferece.

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