quarta-feira, 9 de agosto de 2017

LETRAMENTO PARA ALÉM DO QUE A VISTA ALCANÇA

Na época em que meus filhos foram alfabetizados (estou falando de final da década de 1990), a única preocupação para mim e para escola também, era que eles soubessem ler e escrever a nossa língua portuguesa.

Cabe lembrar que aqui no Brasil reverberava como novidade, a concepção de alfabetização construtivista impulsionada pela pesquisa de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, exposto no clássico livro “Psicogênese da Língua Escrita” (1980); neste trabalho as autoras evidenciam a complexidade que envolve a leitura e escrita em seus aspectos motores, cognitivos e afetivos relacionados ao contexto da realidade socioeconômica dos alunos, deslocando a discussão mecanicista e reprodutivista  de “como se ensina” para uma visão mais contextualizada de   “como se aprende” a ler e a escrever.

Na escola em que meus filhos estudavam, já havia o ensino de informática na perspectiva da aprendizagem do uso de aplicativos e uma tentativa tímida de aulas de robóticas.

Um pouquinho antes, em meados da década de 1980, a professora linguista Mary Kato, em seu livro “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística” (1986) já trazia a palavra letramento e sua carga semântica, definindo-a como o resultado da ação de ensinar e aprender as práticas sociais que envolvem a leitura e escrita, ou seja, o letramento como uma consequência da apropriação da escrita e suas práticas sociais envolvidas. Percebemos aqui que o conceito de letramento suplanta o termo alfabetização. Alfabetização está relacionada com o ato de aprender a ler e escrever, ao passo que letramento é a apropriação de uma ação mais dinâmica que envolve o domínio de habilidades que possibilitem codificar em língua escrita e decodificar a língua escrita, entendida agora como prática social.

Percebo com isso que o letramento, como uma prática mais implicada com a construção do sujeito contextualizado, vem se tornando uma necessidade mais evidente à medida que novas ideias, atreladas aos fenômenos culturais e sociais, vão surgindo, como por exemplo, o avanço das tecnologias. Essas novidades vão transformando e atualizando o modo pelo qual realizamos nossas tarefas, como nos relacionamos e como nós nos comunicamos.

Hoje, todos precisamos nos apropriar (e não apenas aprender) do uso de ferramentas para acessar o mundo digital, pois incorporamos tão naturalmente os componentes digitais em nosso dia a dia que nem paramos para refletir como a tecnologia está tão presente em nosso cotidiano a ponto de exigir de nós o desenvolvimento de novas habilidades para nos apropriar dessa linguagem que avança a cada dia se tornando cada vez mais complexa. 

Meus filhos foram alfabetizados, como a grande maioria dos estudantes daquela época, outros tantos jovens ainda hoje estão sendo. Quanto às aulas de informática, bem, acho que eles encontraram diversos caminhos de aprendizagem, foram se letrando com a vida, ou melhor, foram se apropriando pela experimentação, pela troca com seus amigos e até mesmo pela pesquisa solitária ou compartilhada. A cada avanço das tecnologias, tenho a sensação que meus filhos e a grande maioria de jovens e crianças,  já nasceram com um chip (como diz o ditado), tal habilidade com que transitam no mundo digital.  

O letramento hoje, nas sociedades contemporâneas, invariavelmente está implicado ao universo digital, visto que, a vida das pessoas passa pelas tecnologias, logo, existe a necessidade de se apropriar das ferramentas de acesso ao mundo digital. 
Mesmo quem não domina totalmente a leitura e a escrita, (comumente denominados de alfabetizados funcionais) vão adquirindo familiaridade com os dispositivos de acesso ao mundo digital, e essa aquisição é também uma forma de letramento.   



Percebo que a aprendizagem é um espelho de estranhamentos. Às vezes identificamos facilmente a imagem, outras vezes é preciso um pouco mais de tempo para se acostumar com a distorção e entender que os sentidos se transformam.

Precisamos cada vez mais ampliar a nossa percepção sem perder a criticidade e o estranhamento da realidade que nos cerca, entendendo o universo digital como um espaço que está em crescente transformação, torna-se necessário buscar em diversos campos de conhecimento dispositivos que possibilitem ressignificar ou mesmo criar conceitos que possam traduzir o mundo em que vivemos. Aprender a aprender ainda parece ser o que nos motiva e mobiliza em busca de novidades.  




      
Referencias:

FARENCENA. Gessélda Somavilla. Letramento: considerações históricas e conceituais. Disponível em: 

SABILLÓN, Cinthia Margarita;  BONILLAMaria Helena. Letramento Digital: una nueva perspectiva conceptual


Um comentário:

  1. mais do que adquirir familiaridade com as TIC, os meninos precisam compreender os limites, as potencialidades, as implicações políticas e sociais, para usar de forma crítica os ambientes.

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