sábado, 26 de agosto de 2017

ENTRE PRÁTICAS SOCIAIS E CULTURA DIGITAL



Enquanto estudante de graduação em Pedagogia, participei da disciplina Ação Curricular em Comunidades e em Sociedade – ACCS – EDCH08 – Práticas Educativas em EJA e Desenvolvimento Humano em Comunidades Tradicionais: Marisqueiras de Passé Candeias, ofertada na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (FACED/UFBA). Esse componente teve como foco vivenciar experiências de aprendizagens com mulheres trabalhadoras da pesca tradicional da comunidade de Passé na região do recôncavo baiano, privilegiando a formação de estudantes de graduação nas ações socioeducacionais em comunidade e produção de conhecimento. 

Comunidade de Cações em Madre de Deus 



As atividades realizavam-se na Colônia de Pescadores Z54 e Toda vez que chegava a colônia me chamava atenção a quantidade de computadores, oito para ser exata, arrumados num canto da sala, com bureau, CPU, monitor e estabilizador. Completíssimo!

Solicitei ao presidente da Colônia acesso as máquinas, foi quando recebi como resposta que não estavam instaladas. Ele só havia tirado das caixas para que não estragassem, pois estava aguardando o Ministério da Pesca enviar um técnico para “fazer funcionar” os computadores. Durante dois anos, desde que recebeu as máquinas, aguardava a visita de um técnico para instalação, “inclusive a antena já tá instalada...só falta ligar”. Imaginem o  sentimento de frustação que me abateu.

Os infocentros são espaços públicos e gratuitos equipados com microcomputadores, acessíveis a população, nele, qualquer pessoa  pode navegar pela rede. Faz parte do programa de inclusão digital do governo federal, que destina para os governos estaduais a responsabilidade de sua  implantação.   Podem ser instaladas em escolas da rede pública municipal e estadual, bibliotecas públicas, universidades estaduais, ONGS, OCIPS, entidades comunitárias, associações, sindicatos dentre outros.


A Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado (SECT) é responsável pela implantação dos infocentros na Bahia e, segundo o presidente da Colônia de Passé, até para o Ministério das Comunicações  ele enviou solicitação de visita técnica para instalação dos equipamentos, mas teve como resposta a falta de mão de obra técnica para execução de tal tarefa.

Mesmo tendo como objetivo a promoção da inclusão digital, o acesso à internet não foi viabilizado  em Passé.



[...] sem infraestrutura de rede, de energia elétrica e sem suporte técnico para o funcionamento das máquinas, elas tendem a ser usadas esporadicamente ou então viram sucata muito rapidamente. (BONILLA; PRETTO, 2015, p. 499)


Foi o que percebi, na Colônia de pescadores, máquinas se transformando em sucatas e total imobilidade da comunidade ante o cenário de abandono da coisa pública.

Tentamos articular algum projeto junto com a Colônia de pescadores para tentar implementar o infocentro mas não obtivemos sucesso. Nosso grupo não possuía nenhum integrante com conhecimento suficiente para resolver o problema, além da impossibilidade legal em manipular equipamentos que esperavam o parecer técnico para funcionamento.

Foi aí que pensamos em desenvolver atividades tendo como centralidade o  eixo tecnocultura com o propósito de refletir com a comunidade sobre tecnologia a partir da prática da pesca artesanal de mariscos articulada aos processos da aprendizagem. O propósito foi refletir com a comunidade a tecnologia e sua relação com a cultura local.

Tomamos como ponto central a mariscagem, uma tradição do saber fazer que é ensinado pela oralidade da mulher mais experiente para a mais nova , na cotidianidade e nos ritmos da maré, um espaço de construção de formas de olhar e habitar o mundo. Este fazer não é reconhecido pela comunidade e, consequentemente, não é valorizado como um saber fazer carregado de sentidos e significações.

Durante nossos encontros buscávamos incentivar o reconhecimento da prática das marisqueiras na perspectiva do empoderamento   das mulheres. Passamos a estimular os relatos como dinamizador da memória e da história de cada uma. As marisqueiras passaram a desejar que seus relatos não se perdessem,  surgindo daí a ideia do registro por meio de um livro. As marisqueiras iriam escrever um livro!
Logo no inicio do trabalho com as marisqueiras um fato despertou nossa curiosidade, o desejo expresso por parte de grande parte das mulheres de usar computadores e ter domínio sobre outros recursos tecnológicos, a exemplo do celular, mesmo com a limitação da não alfabetização de algumas delas.

Foi o momento que começamos a utilizar as tecnologias a serviço do fazer tradicional da escrita. Essas mulheres iriam aprender outras formas de registrar suas histórias. O primeiro passo foi criar um blog sobre a comunidade de Passé (isso foi feito pela monitoria do projeto), as informações das pesquisas realizadas pelas marisqueiras alimentavam o blog.



Mesmo sem dominar totalmente a escrita e a leitura, a maioria das marisqueiras, passaram a escrever (ou pedir para que filhos e parentes escrevessem), realizamos algumas oficinas, como oficina de expressão artística, em que representaram pictoricamente a realidade do mangue, oficina de literatura, oficina de fotografia, para que pudessem cada vez mais preparar materiais para a produção do livro.
  O celular foi ganhando força como ferramenta para gravar entrevistas de parentes,  fotografar, enviar mensagens.  Algumas  começaram a trazer os relatos digitados por filhos e netos. Levávamos nossos laptop e transcrevíamos seus relatos. Algumas mais  curiosas até se arvoravam a digitar os textos.
Num desses encontros perguntamos onde elas achavam que existiam marisqueiras. Elas começaram a falar as regiões próximas a Passé, alguns estados como Aracaju, Recife... ficaram surpresas quando acessamos uma página de cultivo de marisco em El Salvador por um grupo da Universidade de Tókio.





“Nunca imaginei que ia ter marisqueira do outro lado do mundo”
Conseguimos produzir o livro e ficou lindo! Mas infelizmente não conseguimos avançar na proposta de fazer funcionar o infocentro.

Trouxe essa história para refletir sobre a política pública em nosso país para o empoderamento digital das populações menos assistidas pelo estado. Vários projetos são iniciados e no meio do caminho são abortados sob a justificativa de falta de recursos, ou pela corrupção, ou mesmo falta de vontade política.

Ainda temos muito que caminhar  quando falamos em criar e socializar novas formas de utilização das tecnologias digitais, seja  nas escolas públicas, ou nas comunidades. No caso das escolas e alguns infocentros que são beneficiados por essas políticas públicas de uso das tecnologias, de uma maneira geral, insistem na perspectiva de tomá-las como ferramentas auxiliares aos processos educacionais, como por exemplo, digitação em complemento das tarefas de sala de aula.

Ampliar o processo de inclusão digital e promover o uso das tecnologias de informação e comunicação, superando a sua perspectiva instrumental, torna-se um desafio. Pois significa ampliar as possibilidades de articulação entre as práticas sociais desenvolvidas com essas tecnologias.

2 comentários:

  1. É, é lamentável o descasso com os projetos. Enviam os equipamentos e não instalam e, o mais grave, ainda impedem que as comunidades tomem a iniciativa para fazer funcionar. O mais triste é que as comunidades ficam passivas diante disso. Falta alguém com ousadia para burlar essas determinações e se apoderar desses equipamentos para que a comunidade possa fazer uso dele...

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  2. Oi Regi, seu texto me fez reviver esta experiência maravilhosa que participamos juntas na atividade curricular em comunidade- ACC sobre as marisqueiras de Passé- Candeias. Vimos de perto as carências daquela comunidade, no que se refere as políticas públicas que não chegam ou quando chegam dependem de inúmeros outros fatores e burocracias os quais dificultam a aquisição de direitos básicos às comunidades e isso inclui as tecnologias, o acesso às redes que na contemporaneidade é um direito fundamental como qualquer outro.

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