Enquanto estudante de graduação em Pedagogia, participei
da disciplina Ação Curricular
em Comunidades e em Sociedade – ACCS – EDCH08 – Práticas
Educativas em EJA e Desenvolvimento Humano em Comunidades Tradicionais: Marisqueiras
de Passé Candeias, ofertada na Faculdade
de Educação da Universidade Federal da Bahia (FACED/UFBA). Esse componente teve
como foco vivenciar experiências de aprendizagens com mulheres trabalhadoras da pesca
tradicional da comunidade de Passé na
região do recôncavo baiano, privilegiando a formação de estudantes de graduação
nas ações socioeducacionais em comunidade e produção de conhecimento.
Comunidade de Cações em Madre
de Deus
As atividades realizavam-se na Colônia de Pescadores Z54 e Toda vez que
chegava a colônia me chamava atenção a quantidade de computadores, oito para ser
exata, arrumados num canto da sala, com bureau, CPU, monitor e estabilizador. Completíssimo!
Solicitei ao presidente da Colônia acesso as máquinas, foi quando recebi
como resposta que não estavam instaladas. Ele só havia tirado das caixas para
que não estragassem, pois estava aguardando o Ministério da Pesca enviar um
técnico para “fazer funcionar” os computadores. Durante dois anos, desde que
recebeu as máquinas, aguardava a visita de um técnico para instalação,
“inclusive a antena já tá instalada...só falta ligar”. Imaginem o sentimento de frustação que me abateu.
Os
infocentros são espaços públicos e gratuitos equipados com microcomputadores,
acessíveis a população, nele, qualquer pessoa
pode navegar pela rede. Faz parte do programa
de inclusão digital do governo federal, que destina para os governos estaduais
a responsabilidade de sua implantação. Podem ser instaladas em escolas da rede
pública municipal e estadual, bibliotecas públicas, universidades estaduais, ONGS,
OCIPS, entidades comunitárias, associações, sindicatos dentre outros.
A Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado (SECT) é responsável
pela implantação dos infocentros na Bahia e, segundo o presidente da Colônia de
Passé, até para o Ministério das Comunicações ele enviou solicitação de visita técnica para
instalação dos equipamentos, mas teve como resposta a falta de mão de obra técnica
para execução de tal tarefa.
Mesmo tendo como objetivo a promoção da inclusão
digital, o acesso à internet não foi viabilizado em Passé.
[...] sem infraestrutura de rede, de energia elétrica e sem suporte técnico para o funcionamento das máquinas, elas tendem a ser usadas esporadicamente ou então viram sucata muito rapidamente. (BONILLA; PRETTO, 2015, p. 499)
Foi o que percebi, na Colônia de pescadores,
máquinas se transformando em sucatas e total imobilidade da comunidade ante o
cenário de abandono da coisa pública.
Tentamos articular algum projeto junto com a Colônia
de pescadores para tentar implementar o infocentro mas não obtivemos sucesso.
Nosso grupo não possuía nenhum integrante com conhecimento suficiente para
resolver o problema, além da impossibilidade legal em manipular equipamentos
que esperavam o parecer técnico para funcionamento.
Foi
aí que pensamos em desenvolver atividades tendo como centralidade o eixo tecnocultura com o propósito de refletir com a comunidade
sobre tecnologia a partir da prática da pesca artesanal de mariscos articulada aos
processos da aprendizagem. O propósito foi refletir com a comunidade a
tecnologia e sua relação com a cultura local.
Tomamos como ponto central a mariscagem, uma tradição do
saber fazer que é ensinado pela oralidade da mulher mais experiente para a mais
nova , na cotidianidade e nos ritmos da maré, um espaço de construção de formas
de olhar e habitar o mundo. Este fazer não é reconhecido pela comunidade e,
consequentemente, não é valorizado como um saber fazer carregado de sentidos e
significações.
Durante nossos encontros buscávamos incentivar o
reconhecimento da prática das marisqueiras na perspectiva do empoderamento das mulheres. Passamos a estimular os
relatos como dinamizador da memória e da história de cada uma. As marisqueiras
passaram a desejar que seus relatos não se perdessem, surgindo daí a ideia do registro por meio de
um livro. As marisqueiras iriam escrever um livro!
Logo no inicio do trabalho com as marisqueiras um
fato despertou nossa curiosidade, o desejo expresso por parte de
grande parte das mulheres de
usar computadores e ter domínio sobre outros recursos tecnológicos, a exemplo do celular, mesmo com a limitação da
não alfabetização de algumas delas.
Foi o momento que começamos a utilizar as tecnologias a
serviço do fazer tradicional da escrita. Essas mulheres iriam aprender outras
formas de registrar suas histórias. O primeiro passo foi criar um blog sobre a
comunidade de Passé (isso foi feito pela monitoria do projeto), as informações
das pesquisas realizadas pelas marisqueiras alimentavam o blog.
Mesmo sem dominar totalmente a escrita e a leitura, a
maioria das marisqueiras, passaram a escrever (ou pedir para que filhos e
parentes escrevessem), realizamos algumas oficinas, como oficina de expressão
artística, em que representaram pictoricamente a realidade do mangue, oficina
de literatura, oficina de fotografia, para que pudessem cada vez mais preparar
materiais para a produção do livro.
O celular foi
ganhando força como ferramenta para gravar entrevistas de parentes, fotografar, enviar mensagens. Algumas
começaram a trazer os relatos digitados por filhos e netos. Levávamos
nossos laptop e transcrevíamos seus relatos. Algumas mais curiosas até se arvoravam a digitar os textos.
Num desses encontros perguntamos onde elas achavam que
existiam marisqueiras. Elas começaram a falar as regiões próximas a Passé,
alguns estados como Aracaju, Recife... ficaram surpresas quando acessamos uma
página de cultivo de marisco em El Salvador por um grupo da Universidade de
Tókio.
“Nunca imaginei que ia ter marisqueira do outro lado do
mundo”
Conseguimos produzir o livro e ficou lindo! Mas
infelizmente não conseguimos avançar na proposta de fazer funcionar o
infocentro.
Trouxe essa história para refletir sobre a
política pública em nosso país para o empoderamento digital das populações menos
assistidas pelo estado. Vários projetos são iniciados e no meio do caminho são
abortados sob a justificativa de falta de recursos, ou pela corrupção, ou mesmo
falta de vontade política.
Ainda temos muito que caminhar quando falamos em criar e socializar novas
formas de utilização das tecnologias digitais, seja nas escolas públicas, ou nas comunidades. No
caso das escolas e alguns infocentros que são beneficiados por essas políticas
públicas de uso das tecnologias, de uma maneira geral, insistem na perspectiva
de tomá-las como ferramentas auxiliares aos processos educacionais, como por
exemplo, digitação em complemento das tarefas de sala de aula.
Ampliar o processo de inclusão digital e
promover o uso das tecnologias de informação e comunicação, superando a sua
perspectiva instrumental, torna-se um desafio. Pois significa ampliar as
possibilidades de articulação entre as práticas sociais desenvolvidas com essas
tecnologias.



É, é lamentável o descasso com os projetos. Enviam os equipamentos e não instalam e, o mais grave, ainda impedem que as comunidades tomem a iniciativa para fazer funcionar. O mais triste é que as comunidades ficam passivas diante disso. Falta alguém com ousadia para burlar essas determinações e se apoderar desses equipamentos para que a comunidade possa fazer uso dele...
ResponderExcluirOi Regi, seu texto me fez reviver esta experiência maravilhosa que participamos juntas na atividade curricular em comunidade- ACC sobre as marisqueiras de Passé- Candeias. Vimos de perto as carências daquela comunidade, no que se refere as políticas públicas que não chegam ou quando chegam dependem de inúmeros outros fatores e burocracias os quais dificultam a aquisição de direitos básicos às comunidades e isso inclui as tecnologias, o acesso às redes que na contemporaneidade é um direito fundamental como qualquer outro.
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