O
Brasil, como a maioria dos países da América Latina, vem desde o século XX, sofrendo mudanças caracterizadas pelas grandes
transformações tecnológicas concomitantes a crises econômicas, políticas e conflitos
sociais; acentuando um modelo de cultura global esquizofrênica em que produz
conhecimento e tecnologias cada vez mais sofisticadas enquanto acentua o abismo
de desigualdades, segmentando grupos que possuem acesso a bens de consumo
decorrentes da modernização em detrimento de outros grupos incapazes de
participar dessa gama de mudanças e benefícios tecnológicos.
A
exclusão social passou a ser discutida e agenciada pelo estado, como um marcador para classificar os pobres
que necessitavam do amparo de ações e programas governamentais.
A
origem do termo é atribuída a René
Lenoir, por seu livro Les exclus: um
français sur dix (Os excluídos: um
em cada dez franceses), quando discutiu a crescente desigualdade social afetada
na crise de 1970 na França, com a onda crescente de desemprego, envelhecimento
da população e “invasão” de imigrantes.
Cabe enfatizar que o termo excluído traz em si a premissa do binômio
exclusão-inclusão, residindo aí, um marcador que acentua as discriminações, ao
nomear determinados grupos como incapazes sociais (ZIONI, 2006).
Carregada
de tensões por trazer consigo esse binômio como delimitante de classes sociais a
partir de um olhar hegemônico sobre o outro, possui em sua configuração a marca
do capitalismo contemporâneo, visto que limita os grupos sociais a estar dentro
ou fora da sociedade de consumo.
Nessa
dimensão podemos perceber como a questão da inclusão e exclusão dimensiona o mundo
do trabalho, da cultura, da sociedade como um todo e, como consequência, da
educação também, uma vez que o desenvolvimento de uma sociedade está
intrinsecamente ligada à educação.
Segundo Severino (2000), “a educação é
entendida como mediação básica na vida social de todas as comunidades humanas”
e esta se encontra diretamente ligada às condições econômicas e socioculturais.
Cabe
ressaltar que na marquise do binômio exclusão-inclusão, outros tantos
marcadores de desigualdade foram abrigados sob a ótica do estado, a exemplo
das pessoas com deficiências, idosos, sem tetos, negros, gênero e por aí vai.
A
inclusão digital, passou a ser pauta de discussão pelo governo
brasileiro a partir do Livro
Verde da Sociedade da Informação no Brasil (BRASIL, 2000), com o intuito de “alavancar o desenvolvimento da Nova
Economia em nosso País em que seria preciso acelerar a introdução dessas
tecnologias no ambiente empresarial brasileiro”.
A
“alfabetização digital” passou a ser elaborada como elemento-chave estratégico
em que cabia ao “sistema político promover políticas de inclusão social, para
que o salto tecnológico tenha paralelo quantitativo e qualitativo nas dimensões
humana, ética e econômica.” (BRASIL. 2000, p. 5). Sob a dimensão de uma política de governo, essa democratização de acesso
às novas tecnologias deveria se dar por meio da “iniciação da população no uso
das TIC”.
Sob
essa perspectiva, o conceito de inclusão digital passou a ser ampliado e discutido no que
diz respeito a não somente a inclusão de grupos sociais ao mundo das novas
tecnologias, mas também para problematizar a qualidade do
acesso e sobre quem detém o “domínio” de uso das TIC, visto que,
Diante de tema tão complexo surge a questão: Como a educação vem lidando com a inclusão digital nas escolas públicas, na perspectiva da apropriação (letramento) das TIC para a emancipação de seus alunos?
Já que para o filósofo Pierre Lévy,
[...] não basta estar na frente de uma tela, munido de todas as interfaces amigáveis que se possa pensar, para superar uma situação de inferioridade. É preciso antes de mais nada estar em condições de participar ativamente dos processos de inteligência coletiva que representam o principal interesse do ciberespaço (LEVY,1999, p. 238).
Isso significa dizer que
não basta tão somente promover a
alfabetização tecnológica e promover o
acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação para alunos e
comunidade; torna-se necessário pensar a qualidade da educação em suas dimensões
estruturais e funcionais, desde a aquisição e manutenção de equipamentos a
qualificação de professores.
Nesse
contexto, os processos de ensino aprendizagem das TIC, envolvem questões
políticas que reverberam nos espaços sociais de aprendizagem que trazem a tona
discussões acerca do papel da educação para formação dos sujeitos, levando em
conta as necessidades e anseios da sociedade.
O desafio posto para a educação e para a sociedade
contemporânea reside em encontrar meios de viabilizar a democratização efetiva do
conhecimento e apropriação das TIC de modo que todos possam ser agentes transformadores de realidades.
A escola, passa a ser um dos espaços imprescindíveis para a interlocução e
para a criatividade, reafirmando a sua função de preparar o estudante para o
mundo, estimulando novas buscas na geração de caminhos que possam conduzir educandos e educadores a construir formas outras
de aproximações e apropriações às novas demandas
educativas que a sociedade do saber e da informação oferecem.
Referências:
BRASIL. Sociedade da
informação no Brasil : livro verde . Organizado por TAKAHASHI, Tadao. –
Brasília : Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000. Disponível
em: http://livros01.livrosgratis.com.br/ci000005.pdf Acessado em 10 de Ago. 2017.
BONILLA, Maria Helena; OLIVEIRA, Paulo Cezar Souza de. Inclusão Digital: Ambiguidades em Curso. p.
25-50 In: Inclusão Digital: polêmicas
contemporâneas. BONILLA, Maria Helena; PRETTO, Nelson (org.)Salvador:
Edufba, 2011.
_______. Políticas públicas
para inclusão digital nas escolas. Revista Motrivivência. Ano
XXII, No 34, P. 40-60 Jun./2010.
BUZATO, Marcelo. Entre a Fronteira e a
Periferia: linguagem e letramento na inclusão
digital. Tese (Doutorado em Lingüística Aplicada) - Instituto de
Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas,
Campinas, 2007. (Capítulo 2)
LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed.
34, 1999.
SEVERINO, Antônio. Educação, trabalho e
cidadania: a educação brasileira e o desafio da formação humana no atual
cenário histórico. In: São Paulo em Perspectiva. Vol.14, nº2.
São Paulo: Apr./June 2000. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392000000200010>.
ZIONI, F. Exclusão social: noção ou
conceito? In: Saúde e Sociedade, v.15, n.3, p.15-29, set-dez, 2006.



Oi Regina! gostei da forma como você articulou a inclusão digital com os desafios da escola. Os professores temos muita responsabilidade no tópico, porque temos que contribuir para que as pessoas generen as transformações necessárias as suas demandas sociais, econômicas, culturais e políticas.
ResponderExcluirinfelizmente a escola ainda está muito centrada no chamado uso pedagógico das TIC, tomando os usos sociais como não direcionados à escola, ou que a escola não deve fazer uso deles, daí os bloqueios das redes sociais, as proibições de celulares, etc, etc...
ResponderExcluirE isso contribui para que estudantes fiquem limitados por esse uso pedagógico das TIC no ambiente escolar. As redes sociais tornam-se espaços dinâmicos de outras tantas aprendizagens e a escola (salvo algumas excessões) se transforma para esses estudantes, um lugar enfadonho de aprendizagem diante do mundo de possibilidades que o digital oferece.
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