Na época
em que meus filhos foram alfabetizados (estou falando de final da década de 1990),
a única preocupação para mim e para escola também, era que eles soubessem ler e
escrever a nossa língua portuguesa.
Cabe
lembrar que aqui no Brasil reverberava como novidade, a concepção de alfabetização
construtivista impulsionada pela pesquisa de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, exposto no clássico livro “Psicogênese
da Língua Escrita” (1980); neste trabalho as autoras evidenciam a complexidade
que envolve a leitura e escrita em seus aspectos motores, cognitivos e afetivos
relacionados ao contexto da realidade socioeconômica dos alunos, deslocando a
discussão mecanicista e reprodutivista de
“como se ensina” para uma visão mais contextualizada de “como
se aprende” a ler e a escrever.
Na
escola em que meus filhos estudavam, já havia o ensino de informática na
perspectiva da aprendizagem do uso de aplicativos e uma tentativa tímida de
aulas de robóticas.
Um
pouquinho antes, em meados da década de 1980, a professora linguista Mary Kato,
em seu livro “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística” (1986) já trazia
a palavra letramento e sua carga semântica, definindo-a como o resultado da
ação de ensinar e aprender as práticas sociais que envolvem a leitura e escrita,
ou seja, o letramento como uma consequência da apropriação da escrita e suas
práticas sociais envolvidas. Percebemos aqui que o conceito de letramento
suplanta o termo alfabetização. Alfabetização está relacionada com o ato de aprender
a ler e escrever, ao passo que letramento é a apropriação de uma ação mais
dinâmica que envolve o domínio de habilidades que possibilitem codificar em
língua escrita e decodificar a língua escrita, entendida agora como prática
social.
Percebo
com isso que o letramento, como uma prática mais implicada com a construção do
sujeito contextualizado, vem se tornando uma necessidade mais evidente à medida
que novas ideias, atreladas aos fenômenos culturais e sociais, vão surgindo, como por exemplo, o avanço das tecnologias. Essas novidades vão transformando e atualizando o
modo pelo qual realizamos nossas tarefas, como nos relacionamos e como nós nos
comunicamos.
Hoje,
todos precisamos nos apropriar (e não apenas aprender) do uso de ferramentas para
acessar o mundo digital, pois incorporamos tão naturalmente os componentes
digitais em nosso dia a dia que nem paramos para refletir como a tecnologia está
tão presente em nosso cotidiano a ponto de exigir de nós o desenvolvimento de novas
habilidades para nos apropriar dessa linguagem que avança a cada dia se tornando
cada vez mais complexa.
Meus
filhos foram alfabetizados, como a grande maioria dos estudantes daquela época,
outros tantos jovens ainda hoje estão sendo. Quanto às aulas de informática,
bem, acho que eles encontraram diversos caminhos de aprendizagem, foram se letrando com a vida, ou melhor, foram se apropriando pela experimentação, pela troca com seus amigos e até mesmo pela pesquisa solitária ou compartilhada. A cada avanço das tecnologias, tenho a sensação que meus filhos e a grande maioria de jovens e crianças, já nasceram com um chip (como diz o ditado), tal habilidade com que transitam no mundo digital.
O letramento
hoje, nas sociedades contemporâneas, invariavelmente está implicado ao universo
digital, visto que, a vida das pessoas passa pelas
tecnologias, logo, existe a necessidade de se apropriar das ferramentas de acesso ao mundo digital.
Mesmo quem não domina totalmente a leitura e a escrita, (comumente denominados de alfabetizados funcionais) vão adquirindo familiaridade com os dispositivos de acesso ao mundo digital, e essa aquisição é também uma forma de letramento.
Mesmo quem não domina totalmente a leitura e a escrita, (comumente denominados de alfabetizados funcionais) vão adquirindo familiaridade com os dispositivos de acesso ao mundo digital, e essa aquisição é também uma forma de letramento.
Percebo
que a aprendizagem é um espelho de estranhamentos. Às vezes identificamos
facilmente a imagem, outras vezes é preciso um pouco mais de tempo para se
acostumar com a distorção e entender que os sentidos se transformam.
Precisamos
cada vez mais ampliar a nossa percepção sem perder a criticidade e o
estranhamento da realidade que nos cerca, entendendo o universo digital como um
espaço que está em crescente transformação, torna-se necessário buscar em
diversos campos de conhecimento dispositivos que possibilitem ressignificar ou
mesmo criar conceitos que possam traduzir o mundo em que vivemos. Aprender a
aprender ainda parece ser o que nos motiva e mobiliza em busca de novidades.
Referencias:
FARENCENA. Gessélda Somavilla. Letramento: considerações históricas e conceituais. Disponível em:
http://w3.ufsm.br/desireemroth/images/stories/fruit/pdf/Gesslda_Letramento_consideraes_histricas_e_conceituais_pdf.pdf Acesso em 08 de ago de 2017.
SABILLÓN, Cinthia Margarita; BONILLA, Maria
Helena. Letramento
Digital: una nueva perspectiva conceptual

mais do que adquirir familiaridade com as TIC, os meninos precisam compreender os limites, as potencialidades, as implicações políticas e sociais, para usar de forma crítica os ambientes.
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