“Polegarzinha”
é um livro que analisa a juventude contemporânea completamente envolvida com as
Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Escrito pelo o filósofo francês Michel Serres
(1930), professor da Universidade de Stanford, membro da Academia Francesa desde 1990 e que foi
professor visitante na Universidade de São Paulo (USP) em 1973. De formação multidisciplinar,
possui formação em ciências exatas
(matemática e física) pesquisa a Epistemologia, Educação, Meio Ambiente e Comunicação.
Michel Serres
A
primeira reação do livro diz respeito ao título curioso:
Polegarzinha
deve-se, segundo o autor, ao grande número de mulheres francesas, em relação
aos homens, que estudam e estão atuantes
no mercado de trabalho (não é tão diferente da nossa realidade aqui no Brasil).
Entre os 5.395 municípios brasileiros que possuem estudantes do ensino médio, as mulheres são maioria em 73,4% deles, ou seja, nessas cidades elas representam 51% ou mais do total de alunos.
http://portal.inep.gov.br/artigo/-/asset_publisher/B4AQV9zFY7Bv/content/mulheres-sao-maioria-no-ensino-medio-em-73-dos-municipios-brasileiros/21206
Outro
aspecto curioso do título do livro é que faz uma alusão a forma como jovens
manipulam os seus celulares para interagir com outras pessoas, com coisas, com
as informações, etc, etc.
Se
antes nossa relação com a descoberta, o conhecimento, a criação era com o dedo
indicador:
Agora...
Em entrevista o professor Serres fala sobre o seu livro e
a juventude globalizada:
A
NOVIDADE?
O autor descreve o
comportamento da atual geração de jovens (o livro foi escrito em 2013) em
contato com as novas tecnologias, como uma
geração asséptica, dissociadas da ancestralidade, da natureza, da emoção.
Jovens sem experiências sinestésicas, vazias de vivências. Ou como brincamos
aqui no Brasil, “jovens criados em playground”,
em que pássaro é avião, árvore é poste.
Piadas à parte, cabe
destacar que aqui no Brasil, essa definição vale apenas para uma classe social que
possui um certo poder aquisitivo. Jovens pobres no Brasil, que convivem, mesmo que precariamente, com as TIC, ainda possuem uma certa ligação
com a comunidade, a família, (isso quando não são tragados pelo tráfico de
drogas e a marginalidade) sem contar que ainda possuímos um grande número de
jovens residindo em periferias que muito se assemelham a regiões rurais. Jovens
que não desfrutam da proteção de um playground, jovens que correm riscos de
serem atingidos por bala perdida, abordagem policial, desemprego, falta de
escolas, etc, etc.
A linguagem mudou (sempre muda, de geração a geração) o trabalho se transformou (sempre se
transforma). A influencia da
mídia adestrando as reações, os sentimentos, faz com que esse mundo
apresente-se confuso, cheio de
informações, gerando crianças multitarefas, imediatistas, em que o tempo da leitura de um
livro, por exemplo, é trocado por drops,
resumos sintetizados por tempos cada vez menores. Usam os polegares para escrever; diferente de seus antepassados
do tempo da datilografia, do tempo rupestre...cuneiforme...e por aí vai.
A minha reação ao livro é
perceber, ou melhor, confirmar que realmente não estamos conseguindo entender o
movimento da juventude e sua relação com as TIC.
Essas transformações comportamentais também estão afetando nós adultos, estamos também modificando as nossas
relações, esmaicendo vínculos, filiações, vendo fragmentar as ideologias que nos constituíam.
Mesmo com alguma dificuldade, estamos nos assoberbando de tarefas. É fato que
não somos como nossos pais e nenhum filho nunca foi ou será.
O que fazia de nossos bisavós,
avós, pais, se sentirem mais
confortáveis em relação aos jovens do passado, é que eles tinham o que ensinar.
O jovem sempre necessitava do mais velho como referencial para aprender, e até mesmo
discordar.
Mas, como lidar com este jovem
contemporâneo que mira com desdém o conhecimento dos mais velhos? Essa relação ancestral mestre aprendiz é rompida com as novas tecnologias. A grande maioria
das pessoas mais velhas sente dificuldade diante dos aparatos tecnológico.
Principalmente quando
constatamos que não é o mais velho (professor, pais, familiares) que detém
o saber que agora está em todo lugar, é acessível a todo
mundo.
Não
temos mais o que ensinar?
Espaço legítimo de ensino, a
escola passa a ser um espaço fragilizado, arcaico. Sala de aula com todos os
alunos sentados enfileirados, aulas extensas em que apenas o professor fala. Parece
que não percebemos, ou não estamos sabendo nos desprender das instituições do
passado. Estamos nos apegando a um modelo que está revelando a sua ineficácia
nesses tempos atuais.
Torna-se difícil concorrer
aos apelos das TIC nesse labirinto
virtual, onde cada esquina traz uma surpresa, uma nova descoberta de vários
saberes, espalhados, diluídos, democrático,
imensurável.
Os corpos se moldam a outras
convenções que não aquela da sala de aula convencional, os jovens não são mais
passivos, como muitas vezes fomos, diante do conhecimento. Como desejar que o
aluno se adapte ao modelo tradicional de ensino aprendizagem que está enraizado
na nossa maneira de fazer educação? Esses jovens já se adaptam rapidamente a uma outra dimensão de ensino aprendizagem oferecido pelas novas tecnologias.
O saber está disponibilizado
nas mãos de cada um.... vários conhecimentos disponibilizados que se transformam
em aprendizagem quando refletidos, transformados, caso contrário não passam de repositório de informações.
O saber está difundido e cada
dia mais veloz. precisamos de
mentes abertas e observadoras que descubram soluções para reconstruir o que muitas vezes parece ter chegado ao
limite de possibilidades.
Infinitas são as oportunidades que as TIC nos oferecem em prol do
conhecimento nos levando a resultados surpreendentes, proporcionando a serendipidade, ou seja, buscar uma coisa e encontrar outras nesse ambiente
caótico, rizomático e motivador de
descobertas que as novas tecnologias apresentam. Na desorganização encontramos
outros modos de organização, fugimos das hierarquias, dos modelos pré
estabelecidos.
SERENDIPIDADE
A perplexidade de nós professores, pais e educadores diante desse jovem imerso nas TIC, se assemelha àquela
quando vemos um livro sem numeração que tem suas páginas arrancadas e jogadas à
uma forte ventania, tendo como desafio
remontá-lo depois de colher cada página espalhada pelo vento e, como não possuímos a numeração, nos
resta a impossibilidade em montá-lo exatamente
como era antes.
Penso que a desordem cria uma outra maneira de ordenar o
conhecimento, o ensino, a aprendizagem e a sociedade. Serres considera que o aprendizado, seja para o indivíduo,
seja para as ciências, seja para a sociedade, se dá sempre no limiar, nessas interconexões
entre o que já é conhecido e o que não é.
Estamos vivendo uma era em
que tudo tem que ser reinventado, inventado. Aprender com jovens polegarzinhxs, significa pensar um
mundo onde todo mundo aprende com todo mundo, significa desconstruir a ideia de
hierarquia e campos de saberes institucionalizados. Significa democratizar as
relações e estabelecer outros laços e vínculos sociais, talvez nos pareça uma
utopia, mas sem dúvida, será uma quebra de paradigmas para nossa sociedade tão
apegada a relações de poder e dominação.
SERRES, Michel.
Polegarzinha. Tradução Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013 |parte 1 - Polegarzinha| |parte2 - Escola| |parte3 - Sociedade|



Fez uma boa contextualização do autor e da obra. Parabéns! E isso é importante, porque precisamos saber de que lugar ele fala, para podermos analisar o que e o quanto a obra pode nos ajudar a analisar a realidade brasileira. Bem pontuado isso em tua reflexão.
ResponderExcluir