domingo, 28 de maio de 2017

IMAGENS, SIMULAÇÕES E OUTRAS COISITAS MAS!

Domingo 28 de dezembro de 1895,
Querido Marcell,
  Desde que cheguei em casa estou ansiosa para te escrever sobre a fabulosa experiência que passamos eu e minha família.
Papai foi convidado pelos irmãos Lumière a levar nossa família para apresentação de um experimento. Fomos ao Café do Boulevard des Capucines, lá seria exibido o primeiro filme, nem sabia o que era isso. Mas estava curiosissíma por conhecer o  Cinematógrafo.  
 As mais elegantes famílias francesas lotaram o recinto. Tudo escureceu. De repente... O inusitado, o fantástico aconteceu...imagens em movimento! Sim não mais a fotografia estática!!
  Caro amigo, em menos de 60 segundos, assistimos a chegada de um trem à estação e vimos alguns passageiros desembarcarem. Imagina o que isso significou para nós da plateia!

  Ninguém sabia o que era aquilo. Todos ficamos atônitos a ponto de várias pessoas simplesmente fugirem desesperadas para o fundo da sala com medo de serem atropeladas pelo trem que vinha em direção da plateia!

A carta acima é uma ficção, mas retrata o que realmente aconteceu quando foi apresentado pelos irmãos Lumière o filme intitulado  Chegada de um trem à estação da Ciotat.(Arrivée d’un train em gare à La Ciotat). Olha ele aí:

Representar com fidelidade a natureza foi um anseio alimentado pelo homem desde que iniciou a retratar acontecimentos da sua vida cotidiana.



  
Retratar o que é sentido e experenciado, certamente não é garantia de fidelidade, (essa fidelidade que o senso comum nos ensina), pois a maneira como outra pessoa, que não aquela que retratou, vê e recepciona a representação pode ser completamente divergente da ideia ou intenção de quem retratou.
A construção confusa da frase acima revela a minha dificuldade em discutir um tema tão complexo contemplado no texto de Couchot[1]  da representação à simulação, em que expõe a evolução das técnicas de figuração como um desejo obsessivo do homem, personificado pelos artista, em “automatizar cada vez mais os processos de criação e reprodução da imagem.” O autor  toma como ponto de partida a arte pictórica do  Quatroccento https://es.slideshare.net/iepipirrana/renacimiento-quattrocento-16035829
e os vários  movimentos que a sucederam culminando com a fotografia. 

A história da fotografia:

 

O advento da fotografia foi um divisor de águas para aplacar um pouco a questão da reprodução fiel da realidade em imagens. 



A imagem estabelece uma junção entre dois momentos do tempo, aquele em que foi captada (feita a mão ou registrada automaticamente pela câmera fotográfica) e aquele em que é contemplada. A lógica figurativa ótica estabelece, portanto, uma relação particular entre o espaço e o tempo, torna-os homogêneos. Representar é poder passar de um ponto qualquer de um espaço em três dimensões a seu análogo (seu "transformador") num espaço de duas dimensões. Mas estabelece também uma relação imediata entre o objeto a figurar, sua imagem e quem organiza o encontro de ambos. A Representação alinha, no espaço e no tempo, o Objeto, a Imagem e o Sujeito. (COUCHOT, 1999, p. 39-40)

A relação entre o Objeto, a Imagem e o Sujeito no espaço e no tempo, é para mim uma das questões mais intrigantes da reprodução em relação a imagem e sua fidelidade com o real.

A realidade não estaria no presente? Ora, se o registro da imagem aprisiona um fato presente, no passado, pois quando congelamos a imagem interrompemos o seu fluxo temporal (ainda que a reprodução da imagem em movimento apresente um fluxo contínuo de ação), no registro essa imagem não é “aprisionada” num tempo previsto de duração e que pode se repetir por um espaço de tempo interminável? Olha que nem vou entrar na discussão do registro de uma transmissão ao vivo!

Ok. O artista ao pintar uma tela, segundo Couchot, cria uma ilusão do real, ou seja, a representação da realidade a partir daquilo que ele, o artista, vê.

Mas afinal, Que fidelidade de imagem é essa em discussão?

Vários artistas e cientistas começaram a discutir a questão da fidelidade da imagem na perspectiva da sua decomposição, ou seja, atingir seu ponto mínimo, pois chegar ao menor ponto da imagem seria possível obter maior fidelidade ao objeto real.


Olha o pontilhismo chegando aí gente, com a ideia tornar a imagem calculável, alcançar o menor ponto para controlá-la e ordená-la.



Quer saber um pouco mais sobre o pontilhismo?
https://www.historiadasartes.com/sala-dos-professores/cores-e-pontos-com-as-obras-de-george-seurat/


Pulamos para as tecnologias digitais, a imagem passa a ser representada por um conjunto de dados numéricos.




A imagem não é mais projetada, mas ejetada pelo real, com força bastante para que se liberte do campo de atração do Real e da Representação. A realidade que a imagem numérica dá a ver é uma outra realidade: uma realidade sintetizada, artificial, sem substrato material além da nuvem eletrônica de bilhões de micro-impulsos que percorrem os circuitos eletrônicos do computador, uma realidade cuja única realidade é virtual. Nesse sentido, pode-se dizer que a imagem-matriz digital não apresenta mais nenhuma aderência ao real: libera-se dele. Faz entrar a lógica da figuração na era da Simulação. A topologia do Sujeito, da Imagem e do Objeto fica abalada: as fronteiras entre esses três atores da representação se esbatem. Eles se desalinham, se interpenetram, se hibridizam. A imagem toma-se imagem-objeto, mas também imagem-linguagem, vaivém entre programa e tela, entre as memórias e o centro de cálculo, os terminais; toma-se imagem-sujeito, pois reage interativamente ao nosso contato, mesmo a nosso olhar: ela também nos olha. O sujeito não mais afronta o objeto em sua resistência de realidade, penetra-o em sua transparência virtual, como entra no próprio interior da imagem. O espaço muda: virtual, pode assumir todas as dimensões possíveis, até dimensões não inteiras, fractais. Mesmo o tempo flui diferente; ou antes, não flui mais de maneira inelutável; sua origem é permanente "reinicializável": não fornece mais acontecimentos prontos, mas eventualidades. Impõe-se uma outra visão do mundo. (COUCHOT, p. 42)



Com a imagem fabricada por meios digitais tornou-se possível reconstruir numericamente, o que Couchot nomeia como uma nova ordem visual. A simulação que é alcançada a partir padrões abstratos, um trabalho colaborativo entre a matemática, física, psicologia cognitiva e linguística, dentre outras áreas do conhecimento que proporcionou a transposição do espaço psicofisiológico para o espaço matemático, ou seja,



 [...] a lógica da Simulação não pretende mais representar o real com uma imagem, mas sintetizá-lo em toda sua complexidade, segundo leis racionais que o descrevem ou explicam. Procura recriar inteiramente uma realidade virtual autônoma, em toda sua profundidade estrutural e funcional. (p. 43)


Computador imitação de onda circular.


E onde cabe tudo isso? Em meu auxílio encontro Pierre Levy [1] quando fala em uma ecologia cognitiva das sociedades articuladas em redes interativas do conhecimento, convoca a nova relação com o saber em sua terceira constatação quando diz: 

[...] o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas: memória (bancos de dados, hiperdocumentos, arquivos digitais de todos os tipos), imaginação (simulações), percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais), raciocínios (inteligência artificial, modelização de fenômenos complexos) [...]. (LEVY, p.157)


Essa possibilidade de interagir com a imagem ampliou a maneira de interpretarmos a realidade, abrindo inúmeras perspectivas em relação a realidade em diversos segmentos da cultura contemporânea e sua relação com o conhecimento. Uma interação que interfere, altera em múltiplas simulações, alterando definitivamente a interpretação do mundo real.
Agora a imaginação não é o limite!



[1] LÉVY, Pierre. Segunda Parte- Proposições. A nova relação com o saber (p. 157-167) . In: Cibercultura. (Trad. Carlos Irineu da Costa). São Paulo: Editora 34, 2009.  


[1] COUCHOT, E. Da representação à simulação: evolução das técnicas e das artes da figuração. In: Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. Org. André Parente. Rio de Janeiro, Editora 34, 1993. p. 37-48.

Um comentário:

  1. Gostei da ideia de que agora a imaginação não é mais o limite, no entanto é a imaginação aliada às possibilidades tecnológicas que colocam o limite sempre mais a frente...

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