sábado, 24 de junho de 2017

INTERNET DAS COISAS E EDUCAÇÃO


Tudo conectado dispositivos, casas, geladeiras, carros, qualquer objeto conectado e processando dados numa rede em interação, controlados remotamente através internet, criando oportunidades entre o mundo físico e o mundo digital.


Um tipo de interface comunicacional entre humanos, máquinas e objetos que, ao fundir os mundos material e informacional, possibilita que tudo que nos cerca esteja conectado com chips, sensores e antenas  entre si para levar conforto e bem estar para as pessoas. Bem vindo a internet das coisas.




Com todo esse aparato ficaremos acomodados e cada vez mais consumidores passivos, estagnando com isso a nossa criticidade em relação a realidade que nos cerca?
No entanto, uma questão para mim mais importante, se instala: Como vamos lidar com o processo ensino aprendizagem para a formação de sujeitos, na temporalidade e localidade da Internet das Coisas?

Num mundo em que somos bombardeados de estímulos audiovisuais que nos requer respostas imediatas, a memória digital que nos possibilita lembrar de qualquer assunto em qualquer tempo, podemos parar um pouco aqui neste ponto para pensar sobre  a escola quando falamos da internet das coisas.

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) realizou durante dois meses, em inícios de 2017, uma consulta pública do Plano Nacional de Internet das Coisas (IoT) no Brasil que irá definir as medidas a serem tomadas para que o país promova a chamada “Internet das Coisas” como modelo de desenvolvimento de setores como o automobilístico, agropecuário e urbanístico do país. 


Segundo o site do MCTI a consulta teve 23 mil acessos únicos que resultaram em 2.288 contribuições sobre grandes temas relacionados à IoT, abordados numa série de perguntas. Em média, cada questão recebeu 15 respostas.

Demanda foi a área líder em participações, com 387 contribuições. Pesquisa e desenvolvimento (257); papel do Estado (226); oferta tecnológica e composição de ecossistemas (225); e assuntos regulatórios (219) vêm logo atrás.

Também foram consultados os seguintes temas: segurança e privacidade, que teve 185 participações; redes e transporte de dados, com 163 contribuições; recursos humanos e suporte a aplicações e serviços, que receberam 139 sugestões cada; gateways e dispositivos, com 131 sugestões; gerenciamento de infraestrutura, que teve 108 contribuições; investimento, financiamento e fomento, com 64 respostas; e aspirações, com 42 participações.



Eis alguns dos pontos do Plano que será lançado: 
1) investir na formação de profissionais; 
2) incentivar a criação de startups; 
3) implementar os grandes negócios;
4) promover melhorias no ambiente legal e regulatório. O projeto está na fase de levantamento do potencial do mercado nacional.

O Plano Nacional de IoT servirá para nortear ações e políticas públicas para o setor até 2025. As diretrizes devem ser apresentadas pelo MCTIC. O Plano Nacional de Internet das Coisas prevê avanços expressivos no aquecimento da economia e na geração de empregos. 




Como pudemos perceber a educação não está inserida na pauta de discussões do Plano, pelo menos nesse apresentado pelo site do MCTI, o fato de, no seu primeiro item, constar a formação de profissionais, não nos dá a garantia que o setor educação esteja sendo pensado nessa agenda.

Diante de tantas dificuldades enfrentadas pelas escolas públicas brasileiras, relativas a acesso e infraestrutura para funcionamento de internet e uso das TIC, fica bem evidente a educação e consequentemente as escolas estarem de fora da previsão do Plano Nacional de IoT.

É claro que independente da escola os alunos estarão invariavelmente inseridos no universo da internet das coisas e essa inserção, sem dúvida, afetará a forma como os professores deverão lidar com o processo de ensino-aprendizagem dentro das escolas.

A capacidade da Internet de armazenar e transformar as informações  já vem afetando o atual sentido da escola, os professores necessitam cada vez mais  elaborar estratégias didáticas em relação ao modo como as informações estão  apreendidas e aprendidas pelos alunos no transcorrer do processo de ensino-aprendizagem. Cada vez mais com a intervenção de dispositivos que coletam, memorizam, transformam e transmitem as informações conectando a outros objetos e pessoas, as relações com a aprendizagem também deverão ser drasticamente modificadas.

A criatividade deverá ser a mola mestra nas experiências formativas gerando possibilidades  emancipatória do conhecimento. Acredito que na sociedade da Internet das Coisas, a aprendizagem deve ser entendida em outra perspectiva da que temos entendido até hoje.

Todos nós lidamos hoje em dia com uma quantidade excessiva de informação, transforma-la em conhecimento aprofundado, crítico e emancipatório,  sem dúvida será o grande desafio para os professores e para a escola pública brasileira em desenvolver com seus alunos processos mais livres e colaborativos de aprendizagem, que estimulem a criatividade e inovação. 









ZUIN, Vânia Gomes; ZUIN. Antônio Álvaro Soares. A formação no tempo e no espaço da internet das coisas. Educação e Sociedade, v.37, n. 136, p. 757-773, jul./set. 2016
NETO, Saul de Oliveira Sichonany; NASCIMENTO, Valéria Ribas.A Cibercidadania como direito humano de terceira geração e o acesso à internet em alta velocidade: a PEC 479/2010 frente a inclusão digital. In: ROVER, Aires José; FILHO, Adalberto; PINHEIRO, Rosalice (Coord). Direito e novas tecnologias. Florianópolis: FUNJAB, 2013, p. 35-60


sábado, 10 de junho de 2017

E O USO DA TECNOLOGIA NA ESCOLA, COMO VAI, VAI BEM?

Vivemos uma época de intensa interação e articulação entre rede tecnológica e social, visto que, as interações sócio – econômica – cultural passaram a ocupar também o espaço digital, caracterizando a rede como um espaço aberto e em permanente construção entre sistemas, aplicativos e novos conteúdos no espaço web dinamizando a  produção colaborativa, participação e interação.
Estamos na Web 2.0

As comunidades virtuais vão se multiplicando nesse espaço de criação, de conteúdo colaborativo e incessantemente atualizado, possibilitando enriquecer  a experiência dos usuários. O seu uso não se limita  apenas ao computador, mas telefones celulares, tablets, etc, criando uma plêiade de interatividade.
Agora buscamos lugares em que nos facilite a conexão, no que Lemos (2009) denomina como  “[...] novos nômades high-tech surgem buscando passar de ponto de acesso a ponto de acesso. [...] sua zona de conexão sem fio ao ciberespaço no espaço urbano público.”
Ampliamos o sentido de espaço urbano em suas dimensões físicas, simbólicas, econômicas, políticas, aliadas a banco de dados eletrônicos, dispositivos e sensores sem fio, portáteis e eletrônicos, ativados a partir da localização e da movimentação do usuário que passam a redimensionar práticas sociais no espaço urbano (Lemos, 2009).
A grande maioria dos jovens (dentre outras categorias geracionais) no Brasil, estão conectados de alguma maneira, seja nos espaços públicos, seja através de pacotes promocionais de operadoras de celulares. O ponto de ônibus, as ruas, os cafés, as praças, as bibliotecas, etc., tornam-se pontos de acesso wifi. conforme os gráficos a seguir[1]:





Mas como tem sido o acesso desse  jovens na escola? Percebemos que o acesso a rede na escola é bem menor em relação ao acesso desses jovens em deslocamento, por exemplo.

Pois bem, a Lei 13.005/2014 que institui o Plano Nacional de Educação, tem como alguns de seus objetivos,
IV - melhoria da qualidade da educação;
VII - promoção humanística, científica, cultural e tecnológica do País;
Em que pese que o cumprimento das 20 metas estabelecidas no PNE deva se concretizar nos próximos 10 anos, gostaria de destacar uma das suas estratégias da meta 3 (Ensino Médio) e meta 7 (Qualidade da Educação Básica/IDEB) em que tratam da  área de tecnologia,
3.14) estimular a participação dos adolescentes nos cursos das áreas tecnológicas e científicas.

7.12) incentivar o desenvolvimento, selecionar, certificar e divulgar tecnologias educacionais para a educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio e incentivar práticas pedagógicas inovadoras que assegurem a melhoria do fluxo escolar e a aprendizagem, assegurada a diversidade de métodos e propostas pedagógicas, com preferência para softwares livres e recursos educacionais abertos, bem como o acompanhamento dos resultados nos sistemas de ensino em que forem aplicadas;

7.15 - Universalizar, até o quinto ano de vigência deste PNE, o acesso à rede mundial de computadores em banda larga de alta velocidade e triplicar, até o final da década, a relação computador/aluno nas escolas da rede pública de Educação Básica, promovendo a utilização pedagógica das tecnologias da informação e da comunicação.

7.20) prover equipamentos e recursos tecnológicos digitais para a utilização pedagógica no ambiente escolar a todas as escolas públicas da educação básica, criando, inclusive, mecanismos para implementação das condições necessárias para a universalização das bibliotecas nas instituições educacionais, com acesso a redes digitais de computadores, inclusive a internet;

7.22) informatizar integralmente a gestão das escolas públicas e das secretarias de educação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, bem como manter programa nacional de formação inicial e continuada para o pessoal técnico das secretarias de educação;

Para conferir o PNE:
http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne/7-aprendizado-adequado-fluxo-adequado/estrategias/7-15-acesso-a-internet-e-relacao-computadores-aluno


Segundo dados do INEP de 2014, o Brasil conta com 186,1 mil escolas das quais:


Não podemos negar que ao longo dos últimos anos o Governo Federal  vem criando programas para promover o uso de tecnologias no desenvolvimento de novos modelos de ensino e aprendizagem, dentre eles 

Programa Nacional de Tecnologia Educacional em 2007

Banda Larga nas Escolas em 2008

Um Computador por Aluno em 2010 

Apesar da disseminação dos computadores e acesso as redes fica difícil imaginar quando e como as tecnologias poderão ser utilizadas de forma efetiva para a produção de conhecimento em sala de aula, pois de acordo com a pesquisa TIC educação lançada em 2014 pelo comitê gestor da internet no Brasil,  apenas 6% das escolas possuem computadores instalados em sala de aula 85% possuem computadores instalados em laboratórios só 57% tem conexões de até  2 mega por segundo, a velocidade mínima prevista pelo programa banda larga nas escolas.  

A tecnologia já está na mão dos alunos, no entanto, em relação ao espaço da escola o que se percebe é um descompasso entre o que o aluno traz pra dentro das escolas e a falta de infra estrutura da mesma para abrigar e potencializar pedagogicamente o uso dos alunos nas redes.
Some-se a isso o despreparo de alguns professores no uso das tecnologias para a produção de conhecimento e aprendizagens no ambiente da escola.
Não só  infra estrutura, é preciso pensar também na formação e atualização de professores para que as tecnologias sejam incorporadas no dia a dia da escola, tornando os alunos usuários criativos dos novos recursos educacionais.
O que vemos ainda é um desencontro entre o que as legislações determinam e o ritmo das ações para a implantação e implementação das políticas educacionais nos usos das tecnologias.
Andamos a passos de tartaruga. Mas estamos caminhando, ainda.


BONILLA, Maria Helena. Formação de professores em tempos de Web 2.0. In: FREITAS, Maria Teresa de Assunção (Org.). Escola, tecnologias digitais e cinema. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2011, p. 59-87.

LEMOS, André. Celulares, funções pós-midiáticas, cidade e mobilidade. URBE - Revista Brasileira de Gestão Urbana, v. 2, n. 2, p. 155–166, jul./dez. 2010.

PAIVA, V. L. M . O. A formação do professor para uso da tecnologia. In: SILVA, K.. A.; DANIEL, F. G.; KANEKO-MARQUES,  S. M.; SALOMÃO, A. C. B. (Orgs) A formação de professores de línguas: Novos Olhares - Volume 2. Campinas, SP: Pontes Editores, 2013. pg. 209-230.

BRASIL, Lei 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Disponível em: http://pne.mec.gov.br/ . Acesso em: 05 de jun. de 2017.




[1] http://idgnow.com.br/internet/2016/10/10/brasil-ainda-tem-6-milhoes-de-criancas-e-adolescentes-sem-acesso-a-internet/

domingo, 4 de junho de 2017

VIVA A LIBERDADE

A primeira vez que ouvi  o termo  software livre foi há cinco anos atrás quando estudante de Pedagogia na Faculdade de Educação da UFBA. Ouvi o professor Nelson Pretto defender com entusiasmo a sua utilização em defesa da liberdade e senso de comunidade dos usuários, a partir de uma filosofia que implica em outro modo de produção e utilização dos bens culturais. 

O Movimento do software livre teve seu inicio a partir dos anos de 1980 nos EUA, fruto da insatisfação de alguns desenvolvedores de sistemas operacionais frente as limitações impostas por empresas com o uso de contratos de licença de software. Richard Stallman, empenhou-se por desenvolver um sistema operacional  compatível,  escapando assim, das restrições impostas pelas empresas dos chamados software proprietário,  criou o GNU e mais adiante fundou a  Free software Foundation https://www.fsf.org/about/Cabe ressaltar que esse movimento abrangeu Pesquisadores, ativistas e desenvolvedores, em diversas partes do mundo. 


Nos anos de 1990, Stallman juntou-se a Linus Torvalds que havia desenvolvido o sistema Linux e, posteriormente, criaram  o sistema operacional GNU/Linux.

                           

 
                                                                         
A esse de conceito software livre significa dizer que os usuários tem a liberdade de executar, copiar, distribuir, estudar, mudar e melhorar o sotfware, cabe ressaltar que o fato de ser livre não significa que seja grátis.  

Valorizar a produção e qualificação do conhecimento a partir de um novo paradigma de desenvolvimento sustentado e de uma nova postura que insere a questão tecnológica no contexto da construção de mundo com inclusão social e igualdade de acesso aos avanços tecnológicos. Esse é o conceito, aqui no Brasil,  da  Associação Software Livre.org, que reúne universidades, empresários, poder público, grupos de usuários, hackers, ONG's e ativistas pela liberdade do conhecimento pela promoção do uso e do desenvolvimento do software livre como uma alternativa de liberdade econômica, tecnológica e de expressão.

Confesso que a ideia que tinha sobre alguém modificar programas de computadores era o que ouvia e lia através dos meios de comunicações, uma ideia deturpada, ignorante e preconceituosa de que essas pessoas eram Hackers, invasores de sites que envolvia espionagem digital além de roubo em contas de banco pela internet. 

Foi quando ouvi falar em ativismo digital.


ÉTICA HACKERS



Conheci os softwares livres na FACED, durante as aulas ao utilizar os ambientes virtuais de aprendizagem, tais como Moodle e  Plataforma Freire.  Cursei alguns componentes curriculares que me esclareceram mais ainda sobre as implicações das novas tecnologias e a importância em defender o conhecimento compartilhado e o papel do professor nessa política implicada de difundir o conhecimento em defesa de uma cultura de compartilhar obras criativas e intelectuais  no âmbito da internet. Surge para mim outro conceito que parte do princípio de que o conhecimento deve ser disponibilizado livremente para o desenvolvimento da humanidade.

CREATIVE COMMONS    


Reconheço que existe um interesse político econômico mundial em escamotear e deturpar o conceito de software livre, já que a total  publicização e uso mais efetivo da sociedade em usar esses programas implicaria em desestabilizar lugares de controle do saber poder estabelecidos pela política de dominação. 


Atualmente, em que pese a existência de   uma política pública através do Programa Nacional de Tecnologia Educacional (Proinfo),  em que utiliza software livre (Linux Educacional 18)  nos laboratórios das escolas públicas e dos Núcleos de Tecnologia Educacional (NTE) em todo Brasil, ainda encontramos resistência por parte de professores,  pela crença de que  o software livre não funciona, é difícil de operar e não é seguro.  

Mesmo com o empenho de vários setores da sociedade em difundir o conceito e a utilização de software livre no Brasil, percebo que no âmbito de muitas escolas ainda existe a desinformação, além das dificuldades instrumentais de usos, acesso e conhecimento de programas livres.  

Diante do movimento contra a difusão do conhecimento e da autonomia dos usuários , imposto pelo mercado capitalista, cabe a nós educadores e ativistas sociais aceitar o desafio de transpor o conceito filosófico da ética hackers, por exemplo, para o espaço da escola, através da qualificação de profissionais na perspectiva de emancipar  estudantes e a comunidade escolar, no que Paulo Freire (1997) denomina emancipação, ou seja, a educação como um instrumento imprescindível de transformação da sociedade que  possibilita ao estudante apropriar-se da realidade e transformar-se em agente da sua própria história, atuante e consciente do seu saber fazer no mundo.  

Referências:

BENKLER, Y. A economia política dos commons. In: SILVEIRA, S (Org.). A comunicação digital e a construção dos commons: redes virais, espectro aberto e as novas possibilidades de regulação. São Paulo: Perseu Abramo, 2007.

BONILLA, Maria Helena. Software Livre e Educação: uma relação em construção. PERSPECTIVA, Florianópolis, v. 32, n. 1, 205-234, jan./abr. 2014.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997.