domingo, 21 de maio de 2017

O ALVORECER DO HOMEM: A cibercultura é uma ficção?


Para tratar do tema “Substratos da cibercultura”, capítulo 4, do livro de Lucia Santaella "Culturas e Artes do Pós-Humano: da cultura das mídias à cibercultura (2003)", gostaria de articular com uma cena do filme “2001 uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick.


Péra! Vamos contextualizar um pouquinho. Esse filme foi inspirado no conto “The Sentinel”, de Arthur C. Clarke, em 1951, e teve sua estreia cinematográfica no ano de 1968; considerado um marco de ficção científica foi ganhador de seis oscar e hoje é considerado um clássico,  que consta no sexto lugar na lista do Sight & Sound dos melhores filmes de todos os tempos. Confiram aí:  http://www.bfi.org.uk/news/50-greatest-films-all-time

A trama se desenvolve no futuro, a partir da descoberta de um monólito deixado por alienígenas na lua. Um grupo de cientistas, comandado por um robô, é enviado com a missão de averiguar tal artefato.


É verdade que a película é considerada por muitos como um filme “cabeção”, devido ao seu conteúdo simbólico e hermético, ao tratar temas como a evolução humana, vida extraterrestre, tecnologia e inteligência artificial; dificultados pela carência de  diálogos elucidativos da trama, sem falar da trilha sonora recheada de clássicos instrumentais entremeada pelo longo silêncio além de ser lentoooo, que “Ave Maria!!”.


Confesso que já assisti três vezes (cochilei na primeira, assisti até a metade na segunda vez e ano passado, finalmente, assisti com prazer até o fim) e sem garantias de ter esgotado totalmente a compreensão do filme. O genial da arte é não se esgotar nunca, né não?  Pesquisei algumas críticas e essa pareceu ser a mais próxima da minha “leitura viagem” do filme. Ah,  não percam os comentários logo abaixo que complementam a crítica. http://www.planocritico.com/critica-2001-uma-odisseia-no-espaco/


Frigir dos ovos: Vou assistir de novo. Quem quiser me acompanhar... 




Por tentar entender o termo cibercultura em sua perspectiva evolucionista abordado no capítulo 4  é que me lembrei de um trecho do filme 2001 uma odisseia no espaço, Vejam aí, por favor:


Essa cena é pra mim, e pra metade da torcida do Bahia (rsrs), emblemática,  pois consegue representar em sua sequência a evolução da raça humana a partir da descoberta e utilização de um objeto,  um pedaço de osso animal, que se transforma em ferramenta de dominação e sobrevivência pelos então hominídeos. Retrata o início da constituição humana a partir da  descoberta/invenção em interação com a natureza.

A essa arqueologia humana trazida no filme, associo ao que a autora Lucia Santaella convoca em seu capítulo 4, quando apresenta um levantamento, digamos que evolucionista, da cultura sob a ótica da cultura digital, estabelecendo inicialmente a distinção “das  seis  eras culturais, a oral, escrita, impressa, de massas, das mídias e digital” (p77), e seus momentos distintos, para mais tarde se imbricarem às novas formações socioculturais que chamamos de cibercultura.

Percebo que tal qual como no filme, a ferramenta de emancipação humana agora é a ferramenta digital, um artefato  que vem se aprimorando e que vem ao longo do tempo se reajustando e ressignificando a partir dos avanços tecnológicos para desembocar no que entendemos hoje como cibercultura.

Se antes o homem estabelecia uma interação ativa com a cultura, agora com a cultura digital passou a ser incluído num movimento homogeinizante e reificante da cultura de massa. Tomemos como exemplo os canais de TV e suas programações, que manipulam os espectadores desde uma peça publicitária a noticiários e programas de entretenimento. Os videogames, videocassetes e tvs a cabo, vão engrossar o caldo da discussão sobre a segmentação de classes, que restringem o consumo e acesso a esses, cada vez mais novos, aportes tecnológicos atualizados e substituídos intermitentemente. 

A internet vem estabelecer uma relação de "autonomia" o tempo agora é sincrônico e assincrônico para seus usuários, depertando um novo comportamento de interatividade e onipresença. Sim, na rede podemos estar em vários espaços ao mesmo tempo. 

A partir do momento que o  hominídeo percebeu que aquele osso poderia ter várias funções e ser manipulado, a sua relação com o mundo passou a ser modificada. Assim também na modernidade, passamos de espectadores para usuários, no que a autora chama de cultura da velocidade, para em seguida entrarmos no mundo das redes.  


Desde o hominídeo que atirou o osso ao espaço na cena do filme 2001, entramos num caldeirão de possibilidades. A era digital possibilitou a confluência de todas as linguagens. Estabelecemos conexões nos espaços fronteiriços entre o humano e a ferramenta/máquina. As interfaces, as novas linguagens vão surgindo em diversas interações estabelecendo um ciberespaço, em que abriga diversas tecnologias de natureza heterogênea, descentralizada, reticulada, de módulos autônomos. 


A ferramenta se transformou em programa. Do homem sapiens para o homem máquina. Ultrapassamos a capacidade de utilizar uma ferramenta como extensão, para agora hibridizar a dimensão homem e máquina. Na era digital, a multimídia se encarrega de convergir todas as linguagens de maneira interativa e interdependente, não linear, no espaço incorpóreo das interfaces, criando um rizoma que nos arremessa para a era pós-midiática, um futuro que está acontecendo agora.

  


Cada vez mais me sinto alheia e ao mesmo tempo incluída nesse ciberespaço. Lá tenho vários endereços, várias vidas, muitas memórias. Por mais que tente, não consigo digerir e acompanhar toda informação que transita nas hipermídias e pelas redes. Ao lançar o osso no espaço, creio estabelecemos uma conexão com o imponderável da evolução humana.  Agora não tem volta!




SANTAELLA, Lucia. Culturas e Artes do Pós-Humano: da cultura das mídias à cibercultura, 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2003 (capítulo 4)

8 comentários:

  1. Regina me pareció lindo el lenguaje que usted usó para el texto. También su nueva foto de perfil ;)
    Gracias por recomendar la película, hay que verla. Al igual que usted menciona que la televisión homogeniza, también podemos decir que hoy en día estamos ante una nueva forma de ver televisión en la que la práctica generalizada del "Surfing" en el que los usuarios ven varios programas a la vez, introduce la creación de un mosaico propio, convirtiéndose las personas en usuarios, no solo en espectadores.

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    1. Gracias Angela! Obrigada por visitar meu blog. Concordo com você quando traz a figura do usuário das redes. Sim, mudamos o "status" de comportamento a medida que as tecnologias vão se aprimorando, no entanto, o que não muda são as maneiras de exclusão que ainda estão estão presentes, em que as classes sociais mais desfavorecidas são marginalizadas e excluídas do acesso e de uma participação mais dinâmica na estrutura social da cibercultura.

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  2. De fato Regi, esta cena do filme é emblemática e mostra o momento que passamos a ver que um simples instrumento, algo como um osso, pode transformar a matéria, modificando a natureza. Bem como, nos revela que com as TIC construímos novas racionalidades, novos pensamentos, nos modificando e modificando as tecnologias em uma interação nunca antes imaginada o que faz das tecnologias atuais, parte fundante da nossa cultura e não só uma simples ferramenta.

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    1. Obrigada pela visita Gi. Pois é, o que antes era uma mera ferramenta para facilitar a vida humana, veio se aprimorando e transformando a cultura, nos fazendo refletir o quanto é inimaginável viver sem as tecnologias.

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  3. Linguagem maravilhosa. É um retrato das possibilidades dadas pelas tecnologias, outras alternativas de comunicação, além disso, novas maneiras de construir o saber científico

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    1. Obrigada por passar por aqui Rafael. Pensando nas infinitas possibilidades das tecnologias é que li com um certo temor uma matéria. (acho que passei o link pelo seu blog: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/12/141202_hawking_inteligencia_pai) em que diz: "No curto prazo, há preocupação quanto à eliminação de milhões de postos de trabalho por conta de máquinas capazes de realizar tarefas humanas; mas líderes de empresas de alta tecnologia, como Elon Musk, da fabricante de foguetes espaciais Space X, acreditam que, a longo prazo, a inteligência artificial se torne "nossa maior ameaça existencial". " Quem viver verá! (rsrsrs)

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  4. Oi Regina, não foi a sincronização de todas as linguagens que confluíram para a era digital, foi o digital que possibilitou a integração ou convergência de todas as linguagens.

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  5. Olá professora. Você tem razão. o digital possibilitou a integração de todas as linguagens e surgimento de novas formações socioculturais (já corrigi no texto), o ciberespaço apresenta-se como um espaço de sociabilidades que vem ressignificando as relações humanas.

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