REAÇÕES A MODERNIDADE LÍQUIDA[1]
De
imediato, ao pensar a categoria tempo/espaço, sou lançada ao senso comum de
pensar o campo das ciências exatas. Penso, logo Einstein!
Foi
com esse pensamento que iniciei a leitura do terceiro capítulo do livro “Modernidade
Líquida”, de Zigmunt Bauman[2],
intitulado Tempo/Espaço.
Já
no prefácio do livro, uma enxurrada de termos e conceitos me põem dentro de um
processador iniciando uma acelerada
rotação, triturando alguns conceitos de “modos sólidos de vida” como a certeza,
a perenidade, a segurança. Dessa massa condensada vão surgindo conceitos como
emancipação, individualidade, tempo/espaço, trabalho, comunidade e suas
transformações de significado e utilizações. Respiro e digo:
-Calma
Regina!
E
como socorro me vem à mente uma frase: “Tudo que é sólido desmancha no ar”[3].
A
minha reação inicial de desespero é acomodada pela percepção de mudanças que
essa modernidade traz; é claro que a vivencio ao vivo e a cores por tantos meios de interação e comunicação: ao testemunhar guerras e acordos financeiros que promovem a dissolução ou fechamento de fronteiras nacionais, conflitos raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologias, que vão transformando e moldando o que chamamos de relações humanas.
Percebo
que modernidade significa muita coisa e necessita de marcadores diferentes para
identificá-la. A modernidade lida com o espaço/tempo numa dimensão capitalista
de produção, pois a medida que a transitoriedade tempo/espaço passa a ser moeda
de valor nas relações e nos modos de produção, estamos fadados a incapacidade
de enfrentar a pluralidade e a ambivalência, por mais plural e ambivalente que seja
esse momento que estamos vivendo, em que narrativas polivocais vão reivindicando
espaços e pauta nas agendas das políticas sociais. Assistimos de camarote a fragmentação da vida humana.
Os
espaços vão se tornando exíguos, o tempo se dilata (quem nunca disse que as
horas deveriam passar das 24 que temos?) precisamos produzir mais em pouco
tempo, ser rápidos, adaptáveis, dóceis... alcançar metas, afinal o céu é o
limite! Ao final já conquistamos esse planeta mesmo! Não dá mais pra viver
nele. Poluímos, matamos os animais, devastamos a natureza. O que estamos mesmo
fazendo aqui? Vamos para Marte!
A
velocidade passa a ser o mote do verão. Passamos da sociedade de produção para a sociedade de consumo. Tudo
passou a ser temporário, o trabalho, os amigos, o prazer, os sonhos... o
durável passou a ser arcaico, relações são fabricadas ( a TV e seus artistas
ditam modelos de comportamentos e consumos efêmeros como um ideal a ser
seguido). O sentido de coletividade passou a ser homogenêo, moldável, destituído de permanência, massa de manobra para atender os fetiches do capital, e, o conceito de felicidade passou a ser um ideal individualmente conquistado, maquiado, sublimado, postado no Facebook.
-
Vamos ao shopping!
Ah,
o velho capital! Sempre se reinventando, se atualizando, empurrando daqui e
dali, criando realidades líquidas, moldáveis e adaptáveis, gerando não lugares,
espaços em que possamos nos aconchegar e consumir as maravilhas expostas,
ditando nossas necessidades, oferecendo a proteção de um espaço asséptico,
livre de toda dor que a vida lá fora nos apresenta. Depois de comer no fast food, regurgitamos a certeza de que
está tudo bem. Está?
[1] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001.
[2] Polonês, sociólogo e professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Nasceu em Poznan a 19 de novembro de 1925 e morreu em Leeds, Inglaterra, em 9 de janeiro de 2017. Dedicou-se a pensar a sociedade moderna em suas dimensões política e social e seus efeitos nas relações humanas.
[3] BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das letras, 1997.
Cara Regina... me gustó mucho su blog y la manera como se acercó al texto. Triste verdad cuando usted menciona que "Tudo passou a ser temporário, o trabalho, os amigos, o prazer, os sonhos..." está en nuestras manos reivindicar el verdadero valor de las relaciones sociales que forjamos día a día para no permitir que se tornen volátiles, superficiales y efímeras. Gracias por exponer sus puntos de vista que nos enriquecen a todos. Abrazos!
ResponderExcluirObrigada Angela. E vamos aqui nesse espaço virtual buscando a interação... parodiando o poeta Vinícius de Moraes que as relações "...sejam eternas enquanto durem."
ExcluirRegina, seu texto é bem dinâmico e nos mostra seu processo de idas e vindas entre o texto de Bauman e o contexto atual da nossa sociedade. De fato, o sistema capitalista tem se reinventado ao longo do tempo e tentado nos impor novas relações sociais, cada vez mais superficiais e excludentes.
ResponderExcluirGi, que este espaço e nossos encontros sejam de reflexão e aprofundamento das questões que nos afligem. E vamos em busca de um mundo mais justo e equânime.
ExcluirBacana o estilo de linguagem usado na reflexão Regina. É isso mesmo o que quero... que solte as ideias, que deixe fluir os pensamentos. Importante a relação que estabelece entre o contexto social e o modelo econômico. Vamos dialogando
ResponderExcluirObrigada professora. Começando a exercitar (timidamente) o pensamento complexo. rsrsrs
ExcluirRegina, triste realidade "o durável passou a ser arcaico", e às vezes se a gente tem algo velho, (não importa o que seja) é o mesmo homem quem aponta e critica a gente por nao ter algo mais novo (desde questões materiais, até relações humanas) e empurra a trocar algo que tal vez para a gente está bom, que não precisa ser trocado por simplesmente trocar por algo mais.
ResponderExcluirPois é Marcela, reagir ativamente a esse mundo das aparências, acredito, seja o desafio da contemporaneidade.
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