sábado, 26 de agosto de 2017

ENTRE PRÁTICAS SOCIAIS E CULTURA DIGITAL



Enquanto estudante de graduação em Pedagogia, participei da disciplina Ação Curricular em Comunidades e em Sociedade – ACCS – EDCH08 – Práticas Educativas em EJA e Desenvolvimento Humano em Comunidades Tradicionais: Marisqueiras de Passé Candeias, ofertada na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (FACED/UFBA). Esse componente teve como foco vivenciar experiências de aprendizagens com mulheres trabalhadoras da pesca tradicional da comunidade de Passé na região do recôncavo baiano, privilegiando a formação de estudantes de graduação nas ações socioeducacionais em comunidade e produção de conhecimento. 

Comunidade de Cações em Madre de Deus 



As atividades realizavam-se na Colônia de Pescadores Z54 e Toda vez que chegava a colônia me chamava atenção a quantidade de computadores, oito para ser exata, arrumados num canto da sala, com bureau, CPU, monitor e estabilizador. Completíssimo!

Solicitei ao presidente da Colônia acesso as máquinas, foi quando recebi como resposta que não estavam instaladas. Ele só havia tirado das caixas para que não estragassem, pois estava aguardando o Ministério da Pesca enviar um técnico para “fazer funcionar” os computadores. Durante dois anos, desde que recebeu as máquinas, aguardava a visita de um técnico para instalação, “inclusive a antena já tá instalada...só falta ligar”. Imaginem o  sentimento de frustação que me abateu.

Os infocentros são espaços públicos e gratuitos equipados com microcomputadores, acessíveis a população, nele, qualquer pessoa  pode navegar pela rede. Faz parte do programa de inclusão digital do governo federal, que destina para os governos estaduais a responsabilidade de sua  implantação.   Podem ser instaladas em escolas da rede pública municipal e estadual, bibliotecas públicas, universidades estaduais, ONGS, OCIPS, entidades comunitárias, associações, sindicatos dentre outros.


A Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado (SECT) é responsável pela implantação dos infocentros na Bahia e, segundo o presidente da Colônia de Passé, até para o Ministério das Comunicações  ele enviou solicitação de visita técnica para instalação dos equipamentos, mas teve como resposta a falta de mão de obra técnica para execução de tal tarefa.

Mesmo tendo como objetivo a promoção da inclusão digital, o acesso à internet não foi viabilizado  em Passé.



[...] sem infraestrutura de rede, de energia elétrica e sem suporte técnico para o funcionamento das máquinas, elas tendem a ser usadas esporadicamente ou então viram sucata muito rapidamente. (BONILLA; PRETTO, 2015, p. 499)


Foi o que percebi, na Colônia de pescadores, máquinas se transformando em sucatas e total imobilidade da comunidade ante o cenário de abandono da coisa pública.

Tentamos articular algum projeto junto com a Colônia de pescadores para tentar implementar o infocentro mas não obtivemos sucesso. Nosso grupo não possuía nenhum integrante com conhecimento suficiente para resolver o problema, além da impossibilidade legal em manipular equipamentos que esperavam o parecer técnico para funcionamento.

Foi aí que pensamos em desenvolver atividades tendo como centralidade o  eixo tecnocultura com o propósito de refletir com a comunidade sobre tecnologia a partir da prática da pesca artesanal de mariscos articulada aos processos da aprendizagem. O propósito foi refletir com a comunidade a tecnologia e sua relação com a cultura local.

Tomamos como ponto central a mariscagem, uma tradição do saber fazer que é ensinado pela oralidade da mulher mais experiente para a mais nova , na cotidianidade e nos ritmos da maré, um espaço de construção de formas de olhar e habitar o mundo. Este fazer não é reconhecido pela comunidade e, consequentemente, não é valorizado como um saber fazer carregado de sentidos e significações.

Durante nossos encontros buscávamos incentivar o reconhecimento da prática das marisqueiras na perspectiva do empoderamento   das mulheres. Passamos a estimular os relatos como dinamizador da memória e da história de cada uma. As marisqueiras passaram a desejar que seus relatos não se perdessem,  surgindo daí a ideia do registro por meio de um livro. As marisqueiras iriam escrever um livro!
Logo no inicio do trabalho com as marisqueiras um fato despertou nossa curiosidade, o desejo expresso por parte de grande parte das mulheres de usar computadores e ter domínio sobre outros recursos tecnológicos, a exemplo do celular, mesmo com a limitação da não alfabetização de algumas delas.

Foi o momento que começamos a utilizar as tecnologias a serviço do fazer tradicional da escrita. Essas mulheres iriam aprender outras formas de registrar suas histórias. O primeiro passo foi criar um blog sobre a comunidade de Passé (isso foi feito pela monitoria do projeto), as informações das pesquisas realizadas pelas marisqueiras alimentavam o blog.



Mesmo sem dominar totalmente a escrita e a leitura, a maioria das marisqueiras, passaram a escrever (ou pedir para que filhos e parentes escrevessem), realizamos algumas oficinas, como oficina de expressão artística, em que representaram pictoricamente a realidade do mangue, oficina de literatura, oficina de fotografia, para que pudessem cada vez mais preparar materiais para a produção do livro.
  O celular foi ganhando força como ferramenta para gravar entrevistas de parentes,  fotografar, enviar mensagens.  Algumas  começaram a trazer os relatos digitados por filhos e netos. Levávamos nossos laptop e transcrevíamos seus relatos. Algumas mais  curiosas até se arvoravam a digitar os textos.
Num desses encontros perguntamos onde elas achavam que existiam marisqueiras. Elas começaram a falar as regiões próximas a Passé, alguns estados como Aracaju, Recife... ficaram surpresas quando acessamos uma página de cultivo de marisco em El Salvador por um grupo da Universidade de Tókio.





“Nunca imaginei que ia ter marisqueira do outro lado do mundo”
Conseguimos produzir o livro e ficou lindo! Mas infelizmente não conseguimos avançar na proposta de fazer funcionar o infocentro.

Trouxe essa história para refletir sobre a política pública em nosso país para o empoderamento digital das populações menos assistidas pelo estado. Vários projetos são iniciados e no meio do caminho são abortados sob a justificativa de falta de recursos, ou pela corrupção, ou mesmo falta de vontade política.

Ainda temos muito que caminhar  quando falamos em criar e socializar novas formas de utilização das tecnologias digitais, seja  nas escolas públicas, ou nas comunidades. No caso das escolas e alguns infocentros que são beneficiados por essas políticas públicas de uso das tecnologias, de uma maneira geral, insistem na perspectiva de tomá-las como ferramentas auxiliares aos processos educacionais, como por exemplo, digitação em complemento das tarefas de sala de aula.

Ampliar o processo de inclusão digital e promover o uso das tecnologias de informação e comunicação, superando a sua perspectiva instrumental, torna-se um desafio. Pois significa ampliar as possibilidades de articulação entre as práticas sociais desenvolvidas com essas tecnologias.

sábado, 19 de agosto de 2017

O MARCO CIVIL: LIMITAR DIREITOS OU GARANTIR LIBERDADES?

Passamos, hoje em dia, a maior parte do nosso tempo navegando pela internet, pela rede trabalhamos, conversamos com amigos e familiares, nos divertimos, nos informamos, pesquisamos, exercemos até a nossa cidadania. A internet se tornou vital para vida de metade da civilização mundial.



Cada vez mais cresce as possibilidades de uso como também o acesso de pessoas a internet. A rede se tornou um lugar de paradoxos devido a sua capilaridade em que relações complexas são estabelecidas, ora antagonicas, ora em consonância, evidenciado um espaço de disputas de poder, de dominação e de liberdade também. Surgindo daí a necessidade de se criar um marco regulativo, ou seja, um conjunto de regras que fosse possível definir direitos e deveres do usuário da internet.


O marco civil da internet é uma lei que está em vigor desde abril de 2014 e trata do direito e deveres do uso da internet no Brasil. Esse conjunto de regras foi construído após consultas públicas em que vários setores da sociedade civil,  interessados nesse tema,  participaram.



Mais do que nunca a internet vem se tornando um espaço imprescindível de relação entre pessoas e negócios, onde circulam desde contas bancárias pessoais, a negociações entre empresas, logísticas, comércio internacional, dentre tantas formas de interação e ganho de dinheiro. Torna-se importante  pensar na segurança dos dados que circulam na internet e como esses conjuntos de dados são utilizados de modo a não violar a privacidade e afetar a segurança de pessoas e de instituições.

Podemos até imaginar que o fato de haver uma regulação sobre o uso da internet isso possa soar como uma proibição. Cabe ressaltar que existe uma distinção entre o que é civil e penal. O marco civil não trata de crimes na internet.

Mas o que separa o limite da censura? 


Claro que coisas ilegais ocorrem na rede, questões que afetam a ética e a moral da sociedade, como por exemplo pronografia infantil, racismo, tráficos de drogas e de pessoas, enfim, existe uma série  de práticas ilegais que são praticadas na rede. 

A liberdade de expressão não deve ser confundida 
com o que é ilegal.



O marco regulatório foi pensado para a defesa da liberdade, a defesa da privacidade e a defesa da neutralidade dimensões que tem como objetivo possibilitar o mesmo acesso  e tráfego na mesma velocidade para todos.









No entanto...

Empresas de telecomunicações que possuem conteúdo na internet tem interesse em controlar a rede em beneficio próprio, ou seja, interesses econômicos de empresas que querem maximizar seus lucros.


Outras questões são políticas e  que estão pendentes ainda aqui no Brasil. Por exemplo, o marco civil da internet ainda não está bem definido quando se fala da neutralidade da rede, visto que envolve grandes empresas de telecomunicações (operadoras da internet) que desejam taxar de forma diferenciada o uso de pacotes de dados, isso fere o princípio da isonomia, ou seja da igualdade. O acesso deve ser igual independente de quem está trafegando, o seu conteúdo, serviço ou aplicação. Defende-se que a operadora não faça distinção e não cobre mais por isso.

Já pensaram o que seria da rede se todas as informações e notícias viessem apenas das grandes empresas de comunicações? Só quem teria condições de pagar mais conseguiria ter mais dados circulandos. E eu, que estou lhe escrevendo agora, provavelmente, não teria condições de postar minhas reações sobre esse tema. Nem você poderia assistir a Netflix de graça!!


O seu PC trava quando você assiste o Game of Thones? Cuidado com o traffic shaping 




O marco civil diz-se fundamental para garantir a liberdade da pessoa na rede e sua privacidade, além de proteger o cidadão da exploração das empresas de telecomunicações.




Será que estamos protegidos com a qualidade de política que vivemos em nosso país? 


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

QUEM ESTÁ INCLUÍDO LEVANTA A MÃO!

O Brasil, como a maioria dos países da América Latina, vem desde o século XX, sofrendo mudanças caracterizadas pelas grandes transformações tecnológicas concomitantes a crises econômicas, políticas e conflitos sociais; acentuando um modelo de cultura global esquizofrênica em que produz conhecimento e tecnologias cada vez mais sofisticadas enquanto acentua o abismo de desigualdades, segmentando grupos que possuem acesso a bens de consumo decorrentes da modernização em detrimento de outros grupos incapazes de participar dessa gama de mudanças e benefícios tecnológicos.   




A exclusão social passou a ser discutida e agenciada pelo estado, como um marcador para classificar os pobres que necessitavam do amparo de ações e programas governamentais.

A origem do termo é atribuída  a René Lenoir, por seu livro Les exclus: um français sur dix  (Os excluídos: um em cada dez franceses), quando discutiu a crescente desigualdade social afetada na crise de 1970 na França, com a onda crescente de desemprego, envelhecimento da população e “invasão” de  imigrantes. Cabe enfatizar que o termo excluído traz em si a premissa do binômio exclusão-inclusão, residindo aí, um marcador que acentua as discriminações, ao nomear determinados grupos como incapazes sociais (ZIONI, 2006).

Carregada de tensões por trazer consigo esse binômio como delimitante de classes sociais a partir de um olhar hegemônico sobre o outro, possui em sua configuração a marca do capitalismo contemporâneo, visto que limita os grupos sociais a estar dentro ou fora da sociedade de consumo. 

Nessa dimensão podemos perceber como a questão da inclusão e exclusão dimensiona o mundo do trabalho, da cultura, da sociedade como um todo e, como consequência, da educação também, uma vez que   o desenvolvimento de uma sociedade está intrinsecamente  ligada à educação.

 Segundo Severino (2000), “a educação é entendida como mediação básica na vida social de todas as comunidades humanas” e esta se encontra diretamente ligada às condições econômicas e socioculturais.

Cabe ressaltar que na marquise do binômio exclusão-inclusão, outros tantos marcadores de desigualdade foram abrigados sob a ótica do estado, a exemplo das pessoas com deficiências, idosos, sem tetos, negros, gênero e por aí vai. 



A inclusão digital,  passou a ser pauta de discussão pelo governo brasileiro a partir do Livro Verde da Sociedade da Informação no Brasil (BRASIL, 2000), com o intuito de “alavancar o desenvolvimento da Nova Economia em nosso País em que seria preciso acelerar a introdução dessas tecnologias no ambiente empresarial brasileiro”

A “alfabetização digital” passou a ser elaborada como elemento-chave estratégico em que cabia ao “sistema político promover políticas de inclusão social, para que o salto tecnológico tenha paralelo quantitativo e qualitativo nas dimensões humana, ética e econômica.” (BRASIL. 2000, p. 5). Sob a dimensão de uma política de governo, essa democratização de acesso às novas tecnologias deveria se dar por meio da “iniciação da população no uso das TIC”.




Portanto, apesar do termo “inclusão digital” possuir um amplo poder de comunicação, é insuficiente para explicitar as potencialidades das TIC para a organização dos sujeitos em torno de seus objetivos e para a transformação social. No entanto, na falta de um termo que melhor expresse as potencialidades das TIC e que tenha força comunicacional, continuamos utilizando o popularizado “inclusão digital”, sem deixar de explicitar suas ambiguidades, contradições e implicações.(BONILLA; OLIVEIRA, 2011, p. 46)

Sob essa perspectiva, o conceito de inclusão digital passou a ser ampliado e discutido no que diz respeito a não somente a inclusão de grupos sociais ao mundo das novas tecnologias, mas também para problematizar  a qualidade do acesso e sobre quem detém o “domínio” de uso das TIC, visto que,  

[...] a inclusão digital não está ou estará só na competência desses grupos para estabelecer e manter uma rede de conexões com a nova ordem capitalista, mas na sua performance por meio delas, nas maneiras como as enunciam e nas contradições envolvidas nessa enunciação. A ID, portanto, não será só a adaptação à linguagem dos novos meios como imperativo abstrato, mas seu uso tático, criativo, transformador. (BUZZATO. 2007, p. 74)

Diante de tema tão complexo surge a questão: Como a educação vem lidando com a inclusão digital nas escolas públicas, na perspectiva da apropriação (letramento) das TIC para a emancipação de seus alunos? 

Já que para o filósofo Pierre Lévy, 

[...] não basta estar na frente de uma tela, munido de todas as interfaces amigáveis que se possa pensar, para superar uma situação de inferioridade. É preciso antes de mais nada estar em condições de participar ativamente dos processos de inteligência coletiva que representam o principal interesse do ciberespaço (LEVY,1999, p. 238).


Isso significa dizer que  não basta tão somente  promover a alfabetização tecnológica e promover o  acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação para alunos e comunidade; torna-se necessário pensar a qualidade da educação em suas dimensões estruturais e funcionais, desde a aquisição e manutenção de equipamentos a qualificação de professores.

Nesse contexto, os processos de ensino aprendizagem das TIC, envolvem questões políticas que reverberam nos espaços sociais de aprendizagem que trazem a tona discussões acerca do papel da educação para formação dos sujeitos, levando em conta as necessidades e anseios da sociedade.




O desafio posto para a educação e para a sociedade contemporânea reside em encontrar meios de viabilizar a democratização efetiva do conhecimento e apropriação das  TIC de modo que todos possam ser agentes transformadores de realidades. 

A escola, passa a ser um dos  espaços imprescindíveis para a interlocução e para a criatividade, reafirmando a sua função de preparar o estudante para o mundo, estimulando  novas  buscas na geração de caminhos que possam  conduzir  educandos e educadores  a   construir  formas outras de aproximações e apropriações às novas demandas educativas que a sociedade do saber e da informação oferecem.  



Referências:
BRASIL. Sociedade da informação no Brasil : livro verde . Organizado por TAKAHASHI, Tadao. – Brasília : Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000. Disponível em: http://livros01.livrosgratis.com.br/ci000005.pdf Acessado em 10 de Ago. 2017.

BONILLA, Maria Helena; OLIVEIRA, Paulo Cezar Souza de. Inclusão Digital: Ambiguidades em Curso. p. 25-50 In: Inclusão Digital: polêmicas contemporâneas. BONILLA, Maria Helena; PRETTO, Nelson (org.)Salvador: Edufba, 2011.
_______. Políticas públicas para inclusão digital nas escolas. Revista Motrivivência. Ano XXII, No 34, P. 40-60 Jun./2010.

BUZATO, Marcelo. Entre a Fronteira e a Periferia: linguagem e letramento na inclusão digital. Tese (Doutorado em Lingüística Aplicada) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2007. (Capítulo 2)

LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

SEVERINO, Antônio. Educação, trabalho e cidadania: a educação brasileira e o desafio da formação humana no atual cenário histórico. In: São Paulo em Perspectiva. Vol.14, nº2.  São Paulo: Apr./June 2000. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392000000200010>.

ZIONI, F. Exclusão social: noção ou conceito? In: Saúde e Sociedade, v.15, n.3, p.15-29, set-dez, 2006.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

LETRAMENTO PARA ALÉM DO QUE A VISTA ALCANÇA

Na época em que meus filhos foram alfabetizados (estou falando de final da década de 1990), a única preocupação para mim e para escola também, era que eles soubessem ler e escrever a nossa língua portuguesa.

Cabe lembrar que aqui no Brasil reverberava como novidade, a concepção de alfabetização construtivista impulsionada pela pesquisa de Emília Ferreiro e Ana Teberosky, exposto no clássico livro “Psicogênese da Língua Escrita” (1980); neste trabalho as autoras evidenciam a complexidade que envolve a leitura e escrita em seus aspectos motores, cognitivos e afetivos relacionados ao contexto da realidade socioeconômica dos alunos, deslocando a discussão mecanicista e reprodutivista  de “como se ensina” para uma visão mais contextualizada de   “como se aprende” a ler e a escrever.

Na escola em que meus filhos estudavam, já havia o ensino de informática na perspectiva da aprendizagem do uso de aplicativos e uma tentativa tímida de aulas de robóticas.

Um pouquinho antes, em meados da década de 1980, a professora linguista Mary Kato, em seu livro “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolinguística” (1986) já trazia a palavra letramento e sua carga semântica, definindo-a como o resultado da ação de ensinar e aprender as práticas sociais que envolvem a leitura e escrita, ou seja, o letramento como uma consequência da apropriação da escrita e suas práticas sociais envolvidas. Percebemos aqui que o conceito de letramento suplanta o termo alfabetização. Alfabetização está relacionada com o ato de aprender a ler e escrever, ao passo que letramento é a apropriação de uma ação mais dinâmica que envolve o domínio de habilidades que possibilitem codificar em língua escrita e decodificar a língua escrita, entendida agora como prática social.

Percebo com isso que o letramento, como uma prática mais implicada com a construção do sujeito contextualizado, vem se tornando uma necessidade mais evidente à medida que novas ideias, atreladas aos fenômenos culturais e sociais, vão surgindo, como por exemplo, o avanço das tecnologias. Essas novidades vão transformando e atualizando o modo pelo qual realizamos nossas tarefas, como nos relacionamos e como nós nos comunicamos.

Hoje, todos precisamos nos apropriar (e não apenas aprender) do uso de ferramentas para acessar o mundo digital, pois incorporamos tão naturalmente os componentes digitais em nosso dia a dia que nem paramos para refletir como a tecnologia está tão presente em nosso cotidiano a ponto de exigir de nós o desenvolvimento de novas habilidades para nos apropriar dessa linguagem que avança a cada dia se tornando cada vez mais complexa. 

Meus filhos foram alfabetizados, como a grande maioria dos estudantes daquela época, outros tantos jovens ainda hoje estão sendo. Quanto às aulas de informática, bem, acho que eles encontraram diversos caminhos de aprendizagem, foram se letrando com a vida, ou melhor, foram se apropriando pela experimentação, pela troca com seus amigos e até mesmo pela pesquisa solitária ou compartilhada. A cada avanço das tecnologias, tenho a sensação que meus filhos e a grande maioria de jovens e crianças,  já nasceram com um chip (como diz o ditado), tal habilidade com que transitam no mundo digital.  

O letramento hoje, nas sociedades contemporâneas, invariavelmente está implicado ao universo digital, visto que, a vida das pessoas passa pelas tecnologias, logo, existe a necessidade de se apropriar das ferramentas de acesso ao mundo digital. 
Mesmo quem não domina totalmente a leitura e a escrita, (comumente denominados de alfabetizados funcionais) vão adquirindo familiaridade com os dispositivos de acesso ao mundo digital, e essa aquisição é também uma forma de letramento.   



Percebo que a aprendizagem é um espelho de estranhamentos. Às vezes identificamos facilmente a imagem, outras vezes é preciso um pouco mais de tempo para se acostumar com a distorção e entender que os sentidos se transformam.

Precisamos cada vez mais ampliar a nossa percepção sem perder a criticidade e o estranhamento da realidade que nos cerca, entendendo o universo digital como um espaço que está em crescente transformação, torna-se necessário buscar em diversos campos de conhecimento dispositivos que possibilitem ressignificar ou mesmo criar conceitos que possam traduzir o mundo em que vivemos. Aprender a aprender ainda parece ser o que nos motiva e mobiliza em busca de novidades.  




      
Referencias:

FARENCENA. Gessélda Somavilla. Letramento: considerações históricas e conceituais. Disponível em: 

SABILLÓN, Cinthia Margarita;  BONILLAMaria Helena. Letramento Digital: una nueva perspectiva conceptual


segunda-feira, 17 de julho de 2017

O IMBRÓGLIO DA EDUCAÇÃO EM TEMPOS DE NOVAS TECNOLOGIAS OU COMO ENTENDER A GERAÇÃO POLEGARZINHXS

“Polegarzinha” é um livro que analisa a juventude contemporânea completamente envolvida com as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC). Escrito pelo o filósofo francês Michel Serres (1930), professor da Universidade de Stanford, membro da Academia Francesa desde 1990 e que foi professor visitante na Universidade de São Paulo (USP) em 1973. De formação multidisciplinar, possui  formação em ciências exatas (matemática e física) pesquisa a  Epistemologia, Educação, Meio Ambiente e Comunicação.
                                                Michel Serres

A primeira reação do livro diz respeito ao título curioso:
Polegarzinha deve-se, segundo o autor, ao grande número de mulheres francesas, em relação aos homens,  que estudam e estão atuantes no mercado de trabalho (não é tão diferente da nossa realidade aqui no Brasil).

Entre os 5.395 municípios brasileiros que possuem estudantes do ensino médio, as mulheres são maioria em 73,4% deles, ou seja, nessas cidades elas representam 51% ou mais do total de alunos. 

 http://portal.inep.gov.br/artigo/-/asset_publisher/B4AQV9zFY7Bv/content/mulheres-sao-maioria-no-ensino-medio-em-73-dos-municipios-brasileiros/21206 


Outro aspecto curioso do título do livro é que faz uma alusão a forma como jovens manipulam os seus celulares para interagir com outras pessoas, com coisas, com as informações, etc, etc.


Se antes nossa relação com a descoberta, o conhecimento, a criação era com o dedo indicador:


Agora...


Em entrevista o professor Serres fala sobre o seu livro e a juventude globalizada:



A NOVIDADE?

O autor descreve o comportamento da atual geração de jovens (o livro foi escrito em 2013) em contato com as novas tecnologias,  como uma geração asséptica, dissociadas da ancestralidade, da natureza, da emoção. Jovens sem experiências sinestésicas, vazias de vivências. Ou como brincamos aqui no Brasil,  “jovens criados em playground”,  em que  pássaro é avião, árvore é poste.

Piadas à parte, cabe destacar que aqui no Brasil, essa definição vale apenas para uma classe social que possui um certo poder aquisitivo. Jovens pobres no Brasil,  que convivem, mesmo que precariamente,  com as TIC, ainda possuem uma certa ligação com  a comunidade, a família,  (isso quando não são tragados pelo tráfico de drogas e a marginalidade) sem contar que ainda possuímos um grande número de jovens residindo em periferias que muito se assemelham a regiões rurais. Jovens que não desfrutam da proteção de um playground, jovens que correm riscos de serem atingidos por bala perdida, abordagem policial, desemprego, falta de escolas, etc, etc.

A linguagem mudou (sempre muda, de geração a geração)  o trabalho se transformou (sempre se transforma).  A influencia da mídia adestrando as reações, os sentimentos, faz com que esse mundo apresente-se  confuso, cheio de informações, gerando crianças multitarefas,  imediatistas, em que o tempo da leitura de um livro, por exemplo,  é trocado por drops, resumos sintetizados por tempos cada vez menores. Usam os polegares para escrever; diferente de seus antepassados do tempo da datilografia, do tempo rupestre...cuneiforme...e por aí vai.

A minha reação ao livro é perceber, ou melhor, confirmar que realmente não estamos conseguindo entender o movimento da juventude e sua relação com as TIC.

Essas  transformações comportamentais  também estão  afetando nós  adultos, estamos também modificando as nossas relações, esmaicendo vínculos, filiações, vendo  fragmentar as ideologias que nos constituíam. Mesmo com alguma dificuldade, estamos nos assoberbando de tarefas. É fato que não somos como nossos pais e nenhum filho nunca foi ou será.  

O que fazia de nossos bisavós, avós, pais,  se sentirem mais confortáveis em relação aos jovens do passado, é que eles tinham o que ensinar. O jovem sempre necessitava do mais velho como referencial para aprender, e até mesmo discordar.
Mas, como lidar com este jovem contemporâneo que mira com desdém o conhecimento dos mais velhos?  Essa relação ancestral mestre aprendiz  é rompida com as novas tecnologias. A grande maioria das pessoas mais velhas sente dificuldade diante dos aparatos tecnológico.

Principalmente quando constatamos que não é o mais velho (professor, pais, familiares) que detém  o saber que  agora está em todo lugar, é acessível a todo mundo.

Não temos mais o que ensinar?

Espaço legítimo de ensino, a escola passa a ser um espaço fragilizado, arcaico. Sala de aula com todos os alunos sentados enfileirados, aulas extensas em que apenas o professor fala. Parece que não percebemos, ou não estamos sabendo nos desprender das instituições do passado. Estamos nos apegando a um modelo que está revelando a sua ineficácia nesses tempos atuais.

Torna-se difícil concorrer aos  apelos das TIC nesse labirinto virtual, onde cada esquina traz uma surpresa, uma nova descoberta de vários saberes,   espalhados, diluídos, democrático, imensurável.

Os corpos se moldam a outras convenções que não aquela da sala de aula convencional, os jovens não são mais passivos, como muitas vezes fomos, diante do conhecimento. Como desejar que o aluno se adapte ao modelo tradicional de ensino aprendizagem que está enraizado na nossa maneira de fazer educação? Esses jovens já se adaptam rapidamente a uma outra dimensão de ensino aprendizagem oferecido pelas novas tecnologias.

O saber está disponibilizado nas mãos de cada um.... vários conhecimentos disponibilizados que se transformam em aprendizagem quando refletidos, transformados, caso contrário não passam de  repositório de informações.
O saber está difundido e cada dia mais veloz. precisamos de mentes abertas e observadoras que descubram soluções para  reconstruir  o que muitas vezes parece ter chegado ao limite de possibilidades.

Infinitas são as oportunidades que as TIC nos oferecem em prol do conhecimento nos levando a resultados surpreendentes, proporcionando  a serendipidade, ou seja,  buscar uma coisa e encontrar outras nesse ambiente caótico,  rizomático e motivador de descobertas que as novas tecnologias apresentam. Na desorganização encontramos outros modos de organização, fugimos das hierarquias, dos modelos pré estabelecidos.

SERENDIPIDADE



A perplexidade de  nós professores, pais e educadores  diante desse  jovem imerso nas TIC, se assemelha àquela quando vemos um livro sem numeração que tem suas páginas arrancadas e jogadas à uma forte ventania, tendo como  desafio remontá-lo depois de colher cada página espalhada pelo  vento e, como não possuímos a numeração, nos resta  a impossibilidade em montá-lo exatamente como era antes.

Penso que  a desordem cria uma outra maneira de ordenar o conhecimento, o ensino, a aprendizagem e a sociedade. Serres considera que o aprendizado, seja para o indivíduo, seja para as ciências, seja para a sociedade,  se dá sempre no limiar, nessas interconexões entre o que já é conhecido e o que não é.

Estamos vivendo uma era em que tudo tem que ser reinventado, inventado.  Aprender com jovens polegarzinhxs, significa pensar um mundo onde todo mundo aprende com todo mundo, significa desconstruir a ideia de hierarquia e campos de saberes institucionalizados. Significa democratizar as relações e estabelecer outros laços e vínculos sociais, talvez nos pareça uma utopia, mas sem dúvida, será uma quebra de paradigmas para nossa sociedade tão apegada a relações de poder e dominação.



SERRES, Michel. Polegarzinha. Tradução Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013 |parte 1 - Polegarzinha| |parte2 - Escola| |parte3 - Sociedade|